— De qualquer forma, quando eu voltar vai ter uma pilha de trabalho. Também cansa.
Lúcia soltou um riso de escárnio:
— Antônio, quem é que vai apodrecer aqui com você?
— Então arrume um jeito de continuar ganhando. — Antônio recolheu a mão e, num instante, retomou o tom frio de sempre. — Não é só uma sequência de vitórias? Existe, sim, um jeito de continuar vencendo.
Lúcia pareceu se lembrar de algo. Fitou, em silêncio, o fundo dos olhos do homem. Eles se encararam, cúmplices, como se já tivessem dito tudo sem dizer nada.
…………
A partida final dos vencedores do Setor D começou. Antônio e Lúcia estavam no mesmo grupo e precisavam jogar em dupla.
Depois de conferir as fichas, um funcionário avisou:
— Mesa trinta e sete.
Desde que Lúcia começara a emendar vitórias, ela notara alguns olhares mal-intencionados rondando por perto.
Agora, esses olhares se reuniam sem disfarce diante deles. Todos à mesa fixaram os olhos nos dois, como se mirassem um alvo.
Ela murmurou para Antônio:
— Acho que viramos o alvo.
— Era de se esperar. — Antônio respondeu, sereno.
Lúcia puxou o ar. Estava tensa. Não disse nada, mas, sob a mesa, Antônio apertou de leve a mão dela.
Havia um único jeito de continuar ganhando: trapacear.
Lúcia conseguia memorizar as cartas nas mãos do crupiê; Antônio sabia calcular, pelos padrões dos outros, o que eles seguravam. Qualquer que fosse o jogo, os dois conseguiam controlar a mesa.
O mais difícil era a troca de cartas.
Os dedos de Antônio eram rápidos. Antes de entrarem, ele ensinara o movimento a Lúcia com cuidado. Para sua surpresa, ela tinha talento: aprendeu de primeira.


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