A porta se abre, e a casa se enche de vozes.
— Heloísa!
A voz do meu pai vem primeiro, carregada, forte, cheia daquela alegria que sempre me desmonta. Eu me levanto no mesmo instante.
— Pai.
Ele larga a pasta no chão antes mesmo de fechar a porta e cruza a sala em três passos largos. O abraço vem apertado, inteiro, daqueles que esmagam costelas e fazem o mundo caber ali dentro por alguns segundos.
— Minha filha… — ele diz baixo, a voz embargando só um pouco. — Finalmente em casa.
Fecho os olhos por um instante. O cheiro dele — colônia conhecida, segurança, infância — me envolve. Não há cálculo aqui. Não há jogo. Só pertencimento.
— Eu senti falta disso — confesso.
Ele se afasta um pouco, segura meu rosto entre as mãos, me examina como se quisesse garantir que estou inteira.
— Você está linda — declara, com orgulho explícito. — Mais forte. Mais você.
Minha mãe surge logo atrás, os olhos já marejados.
— Não faz isso, Carlos, eu ainda nem abracei — reclama, puxando-me para si em seguida.
O abraço dela é diferente. Mais suave. Cheio de cuidado.
— Como foi a viagem, meu amor? — pergunta, alisando meu cabelo como se eu ainda tivesse quinze anos.
— Foi tranquila — respondo, sorrindo. — Trânsito bom, estrada vazia… cheguei bem.
— Graças a Deus — ela suspira, aliviada. — Eu fico tensa com estrada.
Heitor observa a cena a alguns passos de distância. Silencioso. Presente demais. Invisível demais para alguém que claramente sente que não pertence totalmente àquele núcleo.
— Heitor veio te receber — meu pai comenta, passando o braço pelos ombros dele com a confiança de uma amizade de décadas. — Disse que não ia deixar a casa vazia no seu primeiro dia. Esse rapaz é um irmão para mim, Heloísa.
Irmão. A palavra vibra no ar como uma nota desafinada. Eu vejo o maxilar de Heitor travar. O "irmão" do meu pai está olhando para a filha dele como se quisesse devorá-la e protegê-la ao mesmo tempo.
— Foi muita gentileza — respondo, e deixo que a palavra "gentileza" soe tão fria quanto o gelo em um copo de uísque.
— Vamos jantar? — minha mãe interrompe, sentindo a mudança na pressão atmosférica, embora não saiba a causa. — Eu já deixei o banquete pronto.
—Sim, eu já esquentei a lasanha, e as carnes.
—Deve ter arroz na geladeira também. Vou esquentar.
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