Do lado de fora, o meu corpo lembrou como respirar e encostei na parede fria para não desabar no chão.
Eu estava viva.
O lobisomem ensandecido não tinha me matado. O alívio veio se misturar a um arrepio na nuca ao lembrar do quão perto estava de ser devorada por um lobisomem!O sangue dele estava em minhas mãos, se misturando ao sangue que escorreu do ferimento do meu braço.
Estava tremendo, e só percebi que estava chorando quando uma lágrima pingou nas mãos ensanguentadas. Eu corri, como uma protagonista burra de filme de terror de péssima qualidade, segui sem direção.
Quando saí do imóvel, o ar fresco da noite me trouxe de volta a razão. Não tinha percebido que passara tanto tempo lá dentro com pai e filha licantropos.O corredor do alojamento parecia um túmulo. As lâmpadas piscavam aquele amarelo-desbotado que me dava dor de cabeça. Abracei meus próprios braços, contando as portas.
Quatro, três, duas...
Cada tábua do piso rangia um nome diferente.
Noah. Noah. Noah.
Só quando entrei no meu quarto e tranquei a porta o pulmão desamarrou. Fui direto para o chuveiro, de roupa e tudo. O banho foi pra tirar ele da minha pele. Água quase fervendo, descendo pela nuca, deixando a pele avermelhada pelo caminho. O cheiro de mato, de chuva, de Alfa não saía. Pior: uma parte traidora minha não queria que saísse. Deitei-me nua, sem tino para vestir algo. A cama virou campo de batalha. Virei pra esquerda e vi olhos amarelos no escuro. Virei pra direita e senti o roçar fantasma de uma boca no meu pescoço.
Quando o sono bateu, o céu já clareava. Sonhei que o lobisomem ensandecido arrancava o meu coração de dentro do meu peito e o devorava, bem na minha frente.
Sete e trinta e dois da manhã.
Levantei-me com o corpo dolorido e me vesti.
Por mais que me sentisse uma prisioneira naquele mundo, o trabalho era o que me fazia sentir inteira.O laboratório fedia a café e produtos químicos, como sempre.
— Presente pra quem não faltou! — anunciei, jogando a mochila no banco.
Cabelo ainda úmido, óculos escorregando no nariz. Dr. Anísio Moura ergueu a cabeça da centrífuga como criança que ouve falar de sorvete.
— Carolina! Minha querida! Você chegou bem na hora! Acabei de confirmar: o extrato do salgueiro-azul de Oníria tem alto fator de regeneração celular, três vezes maior que qualquer coisa na Terra! O composto que você elaborou pode se tornar uma cura para a doença dos lobisomens caídos!
Ele balançava um erlenmeyer como se fosse troféu.
— Já sei o que vai dizer: Nós fomos sequestrados pro paraíso. Pro Jardim do Éden com jaleco!
É impossível argumentar com o Anísio. O homem tem 70 anos, o currículo de dar inveja e ainda olha pra uma lâmina de microscópio como quem vê fogo pela primeira vez.Um humano como eu, sequestrado como eu, mas que não parecia compreender que era nada mais do que um cativo.
— Oh, doutora Carolina, temos o que há de mais moderno em tecnologia. Alfa Ares é generoso, o que quer que eu peça, ele manda buscar na Terra! Nunca tive condições semelhantes de trabalho nos laboratórios de Tóquio, muito menos do meu país de origem!
— Se o paraíso tem grade, não é paraíso.
— Não há grades aqui, Carolina, pode sair e entrar quando desejar.
— a voz veio da bancada dos fundos, seca feito formol. Dr. Chandler nem levantou os olhos da pipeta. A monocelha formava um risco só, duro, sobre os olhos.

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