Quando a porta de mogno esculpido foi reaberta, Heitor apareceu na entrada.
O homem ficou parado contra a luz. Os cabelos repicados que caíam sobre a sobrancelha eram curtos e estilosos. Os olhos profundos, o nariz reto, as feições primorosamente esculpidas como uma obra dos deuses e o rosto parecendo feito de jade frio construíam uma aura nobre nata. Ele parecia tão poderoso e imponente.
— Já assinou o acordo de divórcio?
Valentina balançou a cabeça.
— Você é tão...
— Eu não quero te perder.
Houve um momento de silêncio.
Valentina enrolou as mangas de babado e puxou o braço limpo para secar os olhos.
Queria ver o rosto de Heitor com clareza.
Ele devia estar muito magoado. Por causa da confusão que ela causou, ele ficou preso no meio, sem saber como agir.
Quando ela olhou novamente, Heitor havia sumido.
Aquele homem, ele tinha ido embora.
Os passos apressados de Heitor trouxeram uma rajada de vento.
Uma pequena orquídea no gramado, que acabara de abrir suas pétalas, curvou-se sob seus pés, caindo com o rosto no chão.
Alfredo passou junto de um engenheiro responsável por supervisionar o conserto das câmeras de segurança.
Nos dias anteriores havia chovido e a fiação das câmeras de segurança do jardim tinha estragado.
O técnico sugeriu que a fiação já estava velha e precisava ser totalmente trocada.
Como a mansão tinha mais de 5.000 metros quadrados, era um grande projeto. Os operários trabalharam por três dias, mas o serviço não havia terminado.
A mansão estava com as câmeras de vigilância inoperantes há quatro dias seguidos.
— A Valen já está trancada faz um dia e uma noite. Se não derem nada para ela comer, a saúde dela vai desmoronar. — Alfredo falou fazendo uma reverência.
Heitor seguiu o seu caminho e disse secamente: — Não vai morrer.
— E se por acaso... a fome fizer mal e ela ficar doente?
— Ela se acha demais. O físico dela é mais forte que de um touro.
Quando escureceu, Valentina deitou encolhida no meio do caos.
Quando amanheceu, ela se sentou e o mundo estava estático.
Ela não corria mais até a porta pedindo para que a abrissem.
"Irmãzinha Valen, não chore, eu vou te contar uma história, pode ser?"
Chorando, ela assentiu com a cabeça.
Seu rostinho molhado foi encostado na orelha do garoto.
Depois de ouvir a história, ainda queria Cláudio Soares.
Ele era o avô que a colhera nas montanhas e ela não havia se separado dele nesses seis anos.
Ricardo desembolsou muito dinheiro para reconstruir na montanha um chalé onde o avô, conhecido por Médico Das Agulhas Mágicas, ficaria alojado.
Ela ficava lembrando do avô, pensando nele e preocupada com ele.
O pequeno Heitor cedia a cama para que ela pudesse dormir, ele mesmo fez uma cama para ele no chão, dormia e tomava conta dela lá dos pés.
Ela havia crescido com o cuidado do jovem rapaz.
O jovem rapaz a mimava muito.
Ele mimou tanto, mimou tanto...
E ela se tornou a Valentina que só tinha o seu Heitor nos olhos, o seu Heitor em seu coração e que não queria deixá-lo em nenhum momento.

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