Beatriz Castro originalmente queria que Júlia Santos descansasse mais alguns dias e só voltasse ao trabalho na semana seguinte, mas não esperava que ela, após uma noite de sono, já aparecesse na redação da revista.
As duas se encontraram na porta. Beatriz Castro revirou os olhos:
— A chefe te manda tirar folga e, mesmo assim, você faz questão de trabalhar. Que sorte a minha ter uma funcionária desse nível!
Júlia Santos deu um tapinha no ombro dela:
— Ter alguém como eu é mesmo uma bênção, não é? Quando é que você vai me promover e efetivar de vez?
— Você já não foi contratada direto como editora? Nunca disse que você seria estagiária... — a voz de Beatriz parou de repente. Só então percebeu o que Júlia queria dizer com promoção e efetivação, e lançou um sorriso debochado: — Então a senhorita está de olho na minha cadeira de co-supervisora?
— Eu não me importaria, só não sei se o resto do pessoal da revista iria concordar.
Ela tinha aquele tipo de beleza marcante. Isaque Santos sempre dizia que ela parecia uma pequena raposa.
Naquele momento, Júlia sorriu levemente, ficando ainda mais deslumbrante.
Ainda sabia brincar, não tinha se transformado numa flor de estufa isolada — Beatriz ficou genuinamente satisfeita.
A redação da revista era um pequeno duplex. O escritório da co-supervisora ficava no térreo, e a equipe de edição trabalhava ali ao lado. Beatriz Castro levou Júlia até sua mesa e fez questão de mostrar:
— Arrumei tudo pessoalmente. E aí, Júlia, está satisfeita?
Só de ver a cadeira de couro legítimo atrás da mesa, Júlia já sabia que era algo caro.
Nada mal para uma chefe — liderando pelo exemplo... de benefícios exclusivos.
— Co-supervisora Beatriz, com esse cuidado todo, quem não conhece pode até achar que sou sua namorada secreta aqui na empresa.
Beatriz levou a mão ao queixo e fingiu pensar seriamente:
— Olha, sua sugestão não é ruim, não. Um romance secreto no escritório... só de imaginar já dá emoção.
Beatriz Castro fazia jus ao nome: era o retrato da mulher forte e sensual do mercado de trabalho.
No dia a dia, nunca poupava ninguém no serviço, e o pessoal da revista, nos bastidores, a chamava carinhosamente de “A Impiedosa”.
Mas, diante de Júlia Santos, mostrava esse outro lado.



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