"Algumas decisões não começam como escolhas; começam como problemas que ninguém quer assumir até o momento em que ignorá-los deixa de ser uma possibilidade."
A campainha tocou pouco depois da meia-noite de forma insistente o suficiente para deixar claro que não se tratava de um engano, e, considerando o horário, Alexander Carter teve certeza de que só existia uma pessoa no mundo com coragem suficiente para aparecer na porta de seu apartamento sem avisar.
O som ecoou pelo imóvel amplo e silencioso, rompendo a tranquilidade que normalmente dominava aquele espaço durante a madrugada. Era exatamente aquele tipo de silêncio que homens como ele valorizavam depois de dias inteiros cercados por reuniões, investidores, negociações e problemas que custavam milhões de dólares, porque o silêncio representava controle, previsibilidade e ausência de surpresas, exatamente o oposto do que aquela campainha sugeria.
Alexander abriu os olhos imediatamente, soltando um suspiro impaciente enquanto passava a mão pelos cabelos ainda bagunçados pelo sono antes de se levantar da cama. Vestindo apenas uma calça de moletom escura que caía baixa no quadril, ele atravessou o apartamento com passos firmes, e mesmo naquele estado despreparado sua presença continuava marcante, reforçada pelos músculos relaxados do torso nu e pela expressão claramente irritada de quem acabava de ser arrancado do descanso.
Quando abriu a porta, já estava pronto para reclamar.
— Emma, espero que isso seja realmente urgente porque...
A frase morreu antes de ser concluída e a irritação desapareceu tão rápido quanto surgiu.
Alguma coisa estava errada.
Muito errada.
Emma estava pálida, com os olhos vermelhos e a respiração irregular, enquanto as mãos apertavam a alça da bolsa com tanta força que os nós dos dedos haviam perdido completamente a cor. Mais do que isso, havia algo na forma como ela permanecia parada diante dele que imediatamente chamou sua atenção, porque sua irmã parecia genuinamente assustada.
Alexander sentiu o corpo enrijecer.
A mudança em sua expressão foi pequena.
Mas completa.
— O que aconteceu?
Emma entrou sem esperar convite e atravessou a sala em passos rápidos, como alguém que precisava continuar se movendo para impedir a própria coragem de desaparecer. O simples fato de ela não pedir permissão já era suficiente para fazê-lo entender que o problema era sério.
— A gente precisa conversar.
Alexander fechou a porta com calma, girando a chave antes de acompanhá-la até a sala enquanto observava cada detalhe de seu comportamento. A maneira como ela evitava permanecer parada, o movimento nervoso dos dedos, a tensão visível em seus ombros e a dificuldade evidente para organizar os pensamentos eram sinais claros de que aquilo não era apenas preocupação.
Era medo.
— Então fala.
Emma parou no centro da sala, respirou fundo e ergueu os olhos para ele, mas demorou alguns segundos para encontrar as palavras certas.
— Você lembra da minha amiga da Rússia?
Alexander cruzou os braços sobre o peito enquanto inclinava levemente a cabeça.
— Aquela que você conheceu em Moscou?
— Sim.
— O que tem ela?
Emma engoliu em seco.
Pela primeira vez desde que entrou no apartamento, sua voz vacilou.
— O noivo dela passou dos limites.
Alexander não respondeu.
Permaneceu imóvel observando.
Emma levou alguns segundos para continuar.
— Ele machucou ela, Alex.
A garganta dela apertou visivelmente.
— Eu vi as fotos.
Ela desbloqueou o celular com dedos trêmulos e respirou fundo antes de completar:
— Meu Deus... eu vi as fotos.
Alexander recebeu o aparelho sem dizer nada.
Seu olhar percorreu rapidamente a tela.
Uma imagem.
Depois outra.
Depois mais uma.
Seu rosto permaneceu praticamente inalterado, mas Emma o conhecia bem demais para não perceber o instante exato em que o músculo próximo à mandíbula se tensionou.
Algo havia mudado.
— Continue.
— Ela fugiu.
Alexander devolveu o aparelho.
— Fugiu?
— Está vindo para os Estados Unidos.
Ele passou lentamente a mão pelo rosto enquanto absorvia a informação.
— E isso virou um problema meu quando?
Emma deu um passo à frente sem recuar.
— Quando isso significa que, se ela voltar, ela pode morrer.
O silêncio que se instalou entre os dois foi pesado o suficiente para preencher toda a sala.
Alexander permaneceu alguns segundos sem responder antes de falar:
— Emma, existem instituições que podem ajudar a sua amiga.
Ela balançou a cabeça imediatamente.
— Não quando ela está fugindo de Viktor Volkov.
Dessa vez o ambiente pareceu mudar.
Não houve explosão, nem surpresa evidente. Mas Emma percebeu o momento exato em que os olhos do irmão escureceram levemente e sua mandíbula se tornou mais rígida.
— Quem? — perguntou.


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