Lizandra Oliveira
Depois de mais um longo e cansativo dia à procura de trabalho, virei a esquina da viela estreita onde ficava o quarto que eu alugava, meu coração já vinha pesado, nos últimos meses. Eu só queria tirar os sapatos, respirar fundo e tentar acreditar que amanhã seria diferente. Mas, quando vi a porta escancarada e minhas coisas espalhadas no corredor, senti minhas pernas quase falharem.
— Dona Olinda? — minha voz saiu baixa, trêmula, mas ela nem esperou eu me aproximar.
Ela estava ali, braços cruzados, expressão dura, como se eu fosse um incômodo que ela finalmente estava se livrando.
— Já falei, Lizandra. Três meses. Três. Não tem mais conversa — ela disse, pegando minhas bolsas de roupas e largando ao lado da porta, como se nem fosse minha.
— Por favor… eu só preciso de mais uma semana. Eu consegui deixar currículos, estou tentando. Hoje mesmo fui em quatro escolas… — tentei argumentar, sentindo a garganta fechar.
— Tentar não paga aluguel — ela cortou, seca, virando de costas para pegar mais coisas minhas. — E eu não vou ficar no prejuízo porque você não se resolve.
Quando a vi segurar minha caixa com meus livros da faculdade, os únicos que eu tinha conseguido manter com tanto esforço, algo dentro de mim desabou.
— Não, por favor! — corri até ela, segurando a caixa antes que ela deixasse cair. — Isso é tudo o que eu tenho…
Ela me olhou apenas por um segundo. Não havia crueldade, mas também não havia compaixão.
— Então dá seu jeito. Aqui você não fica mais.
Meu peito se apertou de um jeito que me deixou sem ar. O sol estava se pondo, e eu ali, na porta, com minhas roupas, meus livros, minhas lembranças… tudo empilhado no chão, exposto, como se minha dignidade também tivesse sido colocada para fora.
— Eu não tenho pra onde ir… — minha voz saiu num soluço.
— Não posso fazer nada — foi tudo o que ela disse antes de entrar e bater a porta, trancando-a e saindo sem olhar para trás.
Fiquei ali, parada, abraçando minha caixa de livros como se fosse a última coisa que me mantinha inteira. As lágrimas escorriam quentes, silenciosas, mas não havia como segurar. Era humilhante. Cruel. Um fim que eu jamais imaginei enfrentar após me formar.
Eu tinha sonhado tanto com aquele diploma. Tinha acreditado que, depois dele, a vida finalmente abriria alguma brecha pra mim. Mas naquele momento, com minhas coisas espalhadas no corredor e o céu escurecendo, eu estava emocionalmente destruída.
Sentei no chão, bem ao lado das minhas coisas empilhadas, sem saber por onde começar. Abracei meus joelhos, tentando segurar o choro que vinha em ondas, mas ele simplesmente continuava escorrendo, quente, insistente.
Meu celular vibrou no bolso da calça. Pensei em ignorar, mas quando vi o nome da Samanta na tela, algo dentro de mim cedeu.
— Alô… — minha voz saiu tão trêmula que mal me reconheci.
— Liz? — a voz dela mudou na hora, alerta, urgente. — O que aconteceu? Você tá chorando? Onde você tá?
— Me… me despejaram, Sasa… — sussurrei, tentando puxar o ar. — Eu cheguei e minhas coisas estavam todas na porta. Eu não tenho pra onde ir agora…
— Me passa seu endereço AGORA — ela ordenou, firme, mas preocupada. — Eu vou te buscar.
— Eu… eu não tenho dinheiro nem pra sair daqui — admiti, apertando os dedos contra o rosto. — Nem ônibus eu consigo pagar hoje.
— Lizandra, pelo amor de Deus, você acha que eu vou deixar você aí? — ela disse, completamente indignada. — Vou mandar um carro de aplicativo pra te buscar. Você e suas coisas. Tudo. Só me manda a localização.
Minha respiração falhou, parte alívio, parte vergonha.
— Sasa… eu não quero te atrapalhar. Você já fez tanto por mim…
— Atrapalha é o escambau — ela cortou, mas com a voz doce, quase rindo. — Amiga serve pra quê? Pra passar perrengue junto. Agora manda a localização antes que eu vá aí correndo descalça.


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