O Dr. Gustavo olhou para Letícia, pálida e jogada na cadeira, ficou em silêncio por um instante e só então começou a falar devagar.
— Senhorita Letícia, você está grávida. Já faz quase um mês. Esse é o motivo do atraso da sua menstruação.
Ao ouvir isso, o último resquício de cor sumiu do rosto de Letícia.
Ela se encostou na cadeira de espaldar alto, afundando no assento, com os ombros encolhidos e os lábios tremendo de leve.
Ficou encarando o velho calendário amarelado na parede por muito tempo. Depois, virou a cabeça e perguntou com uma voz que beirava a súplica: — Tem como tirar esse bebê? Tem como fazer um aborto sem que ninguém saiba?
O Dr. Gustavo não respondeu de imediato. Suspirou, colocou os óculos de leitura novamente, fez um gesto com a mão e pediu: — Dê a mão, vou checar seu pulso mais uma vez.
Letícia colocou o pulso novamente na almofadinha, com o braço duro como um pedaço de pau.
O Dr. Gustavo encostou os três dedos e, dessa vez, demorou bastante medindo. Sua testa franziu cada vez mais.
Ele ergueu os olhos e a observou com escrutínio por cima das lentes, soltando uma pergunta que fez a espinha de Letícia gelar: — Você já fez algum aborto antes? O seu corpo está muito fraco.
O rosto de Letícia perdeu totalmente a cor. Realmente, não havia segredos diante de um médico da medicina tradicional chinesa.
Ela mordeu o lábio, baixou os olhos e ficou em silêncio por um bom tempo até admitir em voz baixa: — Sim, fiz um aborto. Mas foi no exterior, já faz alguns anos.
O Dr. Gustavo balançou a cabeça devagar, tirou a mão do pulso dela e soltou um suspiro que soou nítido na sala silenciosa.

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