Melissa sentiu o coração dormente ao ouvir isso.
Não era isso o que Thiago falava para Beatriz no passado? Naquela época ela escutava as desculpas perfeitamente, sentindo uma alegria oculta, e agora aquelas mesmas palavras caíam sobre ela do mesmo jeito. Até o tom afirmativo de caridade era igual.
Ela o olhou emudecida, os lábios se moveram várias vezes, e ela acabou sem saber o que falar de imediato.
Thiago suspirou, como se também tivesse percebido o exagero das suas palavras.
Ele deu um passo à frente, puxou a mulher para os braços, bateu de leve nas costas dela e o tom suavizou.
— Fica tranquila, eu não vou deixar faltar nada para você. A Beatriz não tem condições físicas de ter filhos agora. O nosso bebê será o meu único filho e da Beatriz. Eu te garanto, não existirão outras crianças. Você e o bebê são as pessoas mais importantes para o Thiago aqui.
Melissa se apoiou no peito dele. A voz das promessas feitas com tanta convicção foi acalmando aquele coração ainda agitado pela frieza de antes.
Ela se soltou do abraço e levantou o rosto para encará-lo nos olhos. As beiradas dos olhos ainda estavam vermelhas, mas o tom já tinha amolecido: — Tá bom. Então me prometa, você não vai voltar atrás?
Thiago a envolveu nos braços novamente assim que viu a mudança nela. Ele tocou o cabelo dela, e o tom carregava uma repreensão afetuosa.
— Lógico que não. Você acha que eu sou alguém que muda de ideia assim?
Melissa encostou a bochecha no peito dele escutando as batidas fortes do coração, mas ainda assim não sentia firmeza.
Ela ficou calada por um instante antes de pedir em voz baixa: — Então você... pode fazer um testamento?
O rosto de Thiago escureceu.
Melissa levantou o rosto, notou a expressão dele e acrescentou imediatamente, num tom que trazia a medida certa de concessão e ressentimento: — Não tem problema se não der. Afinal eu não exijo nada. Eu só quero que o meu filho não seja menosprezado no futuro. Ele não tem registro nessa família. Se um dia você for embora, nós dois ficaremos sem nada de verdade.
Thiago apertou os dentes e ficou calado por vários segundos, como se fizesse um balanço muito complicado.
Até que ele cuspiu uma palavra com firmeza: — Tá.
Melissa só então sorriu aliviada, e o sorriso se espalhou dos cantos da boca até os olhos: — Obrigada, Thiago.
Thiago a observou com aquela cara satisfeita, mas um sentimento estranho de culpa tomou conta dele.
Como ele ia se justificar com a Beatriz? Na verdade, ele não tinha plena certeza quando falou que "a Beatriz não tem condições de ter filhos".
Mas ele preferia jogar a culpa na Beatriz a aceitar que o defeito era seu.
Ele andou até a cama e passou a mão nos lençóis, que não guardavam o menor calor. Isso deixava claro que Beatriz tinha saído há um bom tempo.
Ele coçou a cabeça, sentindo uma raiva confusa subir. Dificilmente ele acordava tão cedo, pensando em tomar o café da manhã com ela para melhorar o clima, e ela virou as costas sem nem avisar.
Ele pegou o celular e enviou uma mensagem para ela: — Você estava com tanta pressa de ir embora assim? Amor, eu planejava fazer o café da manhã para você.
Beatriz já estava no táxi a caminho da empresa. Ela abaixou os olhos para a mensagem de Thiago na tela, e o olhar continuava tão tranquilo que não apresentava qualquer oscilação.
Café da manhã? Ela repuxou os cantos da boca, sem riso nos olhos.
O Thiago, que nunca levantava um dedo para os trabalhos domésticos e mesmo depois de anos casado não sabia ligar o fogão, falando que faria o café da manhã.
Mas isso só servia como saída pelo fato de ter a forçado a entrar no carro no dia anterior, de quebra passando a pose de marido prestativo.
Ela travou a tela e botou o celular no bolso, ignorando a mensagem.
Quando Beatriz chegou ao Grupo Drumond, o prédio estava vazio. As luzes do saguão ainda não estavam todas acesas, e apenas o segurança abria a boca de sono atrás da recepção.
Ela foi a primeira a chegar. Quando passou o cartão na catraca, a máquina emitiu um som limpo.

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