Lorenzo ajudou Beatriz a sair daquele prédio velho. As pernas de Beatriz ainda estavam fracas.
Ele diminuiu o passo, esperando por ela de propósito.
Ao sair do beco, Beatriz percebeu que estavam perto do ateliê dele. Faltava apenas virar duas esquinas.
Lorenzo empurrou a porta do Ateliê Relicário, ajudou Beatriz a se sentar no sofá e foi para os fundos. Um momento depois, voltou com um copo de água quente e entregou a ela.
Beatriz pegou o copo. Ao tocar na borda morna, o calor foi das pontas dos dedos até o peito. Ela olhou para Lorenzo, ainda com a voz fraca:
— Obrigada.
Lorenzo murmurou algo sem emoção, foi até a mesa de trabalho e se sentou. Pegou um pincel e abaixou a cabeça para continuar restaurando o quadro.
A luz bateu no seu perfil, marcando os contornos definidos.
Beatriz continuou no sofá, segurando o copo. O vapor quente borrou a sua visão e ela perguntou a Lorenzo por curiosidade:
— Como você apareceu lá de repente?
Os dedos de Lorenzo pararam, mas logo voltaram ao normal. A voz soou tão distante quanto antes: — Estava procurando umas coisas.
Beatriz segurou o copo e deu um pequeno gole na água quente. O frio que sentia foi embora: — Que coisas?
Lorenzo levantou os olhos e a olhou com frieza.
Aquele olhar ficou escuro sob a luz amarelada, como se escondesse um segredo que não podia ser dito: — Umas coisas importantes. Não pergunte muito. Você está passando dos limites.
Beatriz ficou surpresa e percebeu que havia falado demais.
Abaixou a cabeça, tomou mais um gole d'água e não disse mais nada.
O silêncio tomou conta do ambiente, criando um certo desconforto. Só muito tempo depois ela voltou a falar:
— Obrigada por hoje.


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