Três anos. Três longos anos fora do meu país. E agora eu estava de volta, trazendo só uma mala e minha melhor amiga de três patas, uma cachorrinha chamada Ira.
Eu não estava voltando por vontade própria. Pouca coisa me prendia em Noriah Norte. Mas duas delas eram essenciais para encerrar o passado: me divorciar e pagar a dívida da minha mãe.
Sim, eu me casei com um desconhecido.
Assinei um contrato absurdo que me obrigava a ficar presa a um homem por três malditos anos. As regras eram simples e claras... e tão absurdas quanto a situação: sem nomes, sem rostos, sem informações.
Recebi a proposta de um advogado. Jamais saberia quem decidiu que eu era a escolhida para ser subsidiada com cerca de 80 mil dólares ao ano em Harvard, incluindo moradia, alimentação, livros e taxas.
Achei que aquele sonho era impossível. Mas pelo visto alguém achou que eu tinha potencial… desde que eu assinasse aquele contrato que nunca faria sentido.
Eu nunca quis saber de quem vinha a proposta. Mesmo que quisesse, não teria respostas. Tudo foi feito de forma confidencial.
Era uma quantia que eu jamais poderia pagar. Ao menos não nessa vida, onde eu era só mais uma pessoa insignificante.
O tempo em Harvard me fez encontrar minha autoestima. Descobri meu valor. Eu não era só inteligente. Eu podia ser divertida e focada. E tudo isso sem quebrar nenhuma parte do corpo. Sem precisar de pontos.
Mas eu sabia que a parte mais quebrada do meu corpo era o coração. E esse não havia gesso, bandagens ou suturas que consertassem.
Conforme as regras do contrato, passados os três anos eu poderia assinar o divórcio e estaria livre.
Quer dizer… livre com o título de divorciada.
Durante anos tentei juntar dinheiro para pagar a dívida com o senhor Leonardo Deschamps. Trabalhei em dois empregos e mais um freelancer. Mas foi inútil. Eu nunca conseguiria.
Aquele contrato foi a solução. Estudar em Harvard e poder livrar minha mãe da quase escravidão com que servia os Deschamps por minha culpa.
Meu telefone vibrou. Chamada em grupo:
— Bem-vinda de volta, amiga. — Heloísa estava empolgada.
— Estamos morrendo de saudade. — Abigail quase atropelou a fala de Helô.
— Percebi! Nem foram me buscar no aeroporto. — fingi estar chateada.
— Não estudamos em Harvard. Aqui é vida real, Fran. Ou seja, trabalho formal sem chance de dispensa para receber melhor amiga.
— Formada estou. Mas sem emprego.
— Vai arranjar algo logo. — tentaram me animar.
— Nossa amiga é formada em Harvard! Estou tão orgulhosa!
— Custou três anos casada com um desconhecido.
— Foda-se! Você nem precisou ser esposa de fato. Dinheiro no bolso e um marido que nunca aparece é o sonho de qualquer mulher.
— Aposto que seu marido é um velho frustrado que não quis morrer solteiro. — Helô cogitou.
— Embora eu nunca tenha visto meu marido, o casamento é real.
— Temos um presente para você. — Helô sorriu, ansiosa.
— Custou quase um mês do nosso salário.
— Vão me dar um carro? — brinquei. — não precisavam ter se preocupado com isso.
— Não é um carro. É uma noite perfeita. Prazer físico é melhor que carro. — Helô disse, convicta.
Abi completou:
— Sexo de qualidade. Sem compromisso, sem nome, com total sigilo e discrição. Igual ao seu casamento.
— Ok, agora contem a verdade. Estou rindo com a brincadeira.
— Contratamos um garoto de programa. Essa é a verdade. — disse Helô.
— Ninguém se divorcia virgem. — Abi ainda tentou convencer.
— Nem fodendo. — fui enfática.
— Hotel Califórnia.
— Lindo, sexy, discreto. Vai te fazer gozar até apagar. — Abi disse sem respirar.
— Não.
— Já está pago, Fran.
— Custou caro, amiga. Não seja ingrata.
— Definitivamente não.
— Peça o quarto 196 na recepção. — Helô deu o assunto por encerrado.
— Ele te esperará às 20h.
Son of a bitch!
Claro que eu não iria. Quem, em sã consciência, daria sua primeira vez para um garoto de programa?
Quando cheguei à propriedade Deschamps, um frio percorreu minha espinha. Eu tinha lembranças horríveis daquele lugar. Mas precisava voltar para fechar os ciclos que me impediam de seguir em frente e deixar o passado para trás.
A casa da minha mãe ficava na área dos empregados mais fiéis. Uma vez ela foi alguém importante ali. Mas há 12 anos deixou de ser, por minha culpa.
Eu suportei a solidão por três anos porque o desprezo era pior.
E sabia que o primeiro passo para me curar era aceitar que doía.
Por muito tempo tentei provar minha inocência. Mas foi inútil. Então deixei que acreditassem na versão que criaram de mim. Não era meu dever corrigir histórias inventadas.
— Se comporte, Ira — adverti — não sei como mamãe reagirá com a sua presença.
Abri a porta. Tudo estava igual, exatamente como quando parti. Uma sensação de temor me invadiu.

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