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O Milagre do Alfa romance Capítulo 2

*****CINCO ANOS DEPOIS*****

E como era esse lugar? — Nadja perguntou com os olhos brilhantes.

— Era bonito, cercado por árvores. Tinha uma grande fogueira no centro e nos sentávamos em torno. Eu ainda posso sentir o calor que vinha das chamas. Minha avó contava como conheceu o meu avô, a conexão que tinham um com o outro. Ela me prometeu que um dia eu conheceria o meu companheiro, pois ainda que demorasse, a Grande Deusa nos aproximaria. — Rebeca disse com o semblante cansado.

Aquelas palavras eram ditas quase todas as noites, todavia, Nadja parecia não se cansar de ouvir sobre o mundo que já tinha esquecido.

— Acredita nisso? Que temos companheiros e que eles vão nos encontrar um dia?

Ela estava sentada no chão, suas mãos seguravam as grades de metal que separavam as celas. Rebeca estava deitada, de costas para ela, olhos fechados, prestes a pegar no sono.

Rebeca pousou a mão no ventre, tentando acalmar as cólicas que a incomodavam desde aquela manhã. Ela sabia o que significavam e o pouco de esperança que tinha a abandonou.

— Amanhã conversamos mais, preciso dormir!

Nadja se afastou das grades da cela e se encolheu no canto. Era nítida a diferença no humor da amiga nos últimos dias, e naquele momento, até mesmo a sua voz transbordava melancolia.

Cinco anos, esse era o tempo que Nadja estava confinada naquela cela fria e escura. Não se lembrava de nada antes de acordar naquele lugar sombrio e desolado. Os colegas de cativeiro a chamavam de Nadja, não por lembrar de seu nome, mas, graças ao colar em seu pescoço, único objeto pertencente ao passado apagado da memória.

A única rotina conhecida era a de trabalhar durante o dia e ser trancafiada a noite, quando repousava o seu corpo cansado em um colchão velho sobre o chão no canto da cela. No início, eram dezenas deles, divididos em categorias por seus algozes. Ela não sabia o que significavam tais categorias, sabia apenas que Ômegas faziam o trabalho pesado, Lunas e Betas serviços domésticos. Nenhum deles, no entanto, podia sair da área de confinamento, para que o seu cheiro não atraísse “enxeridos”.

Com o passar do tempo, o número diminuiu. Três Lunas foram vendidas logo na primeira semana, alguns ômegas morreram devido aos abusos. Lunas não sofriam abusos físicos, valiam mais se fossem intocadas, porém, Ômegas não tinham a mesma sorte…

Sobraram apenas duas Lunas, ela e a sua colega de cela. Nenhuma das duas se lembrava muito bem do mundo externo antes de chegarem àquele lugar, mas Rebeca tinha sonhos. Sonhos que poderiam ser lembranças de sua avó lhe ensinando sobre almas gêmeas, como o destino sempre se encarregava de fazer com que companheiros se encontrassem.

Nadja aguardava por essas histórias sempre que voltavam para a cela após um dia de trabalho. Ela ouvia com atenção cada palavra capaz de encher o seu coração de esperança. A promessa de que, em algum lugar, sua alma gêmea a estaria procurando, ansioso por encontrá-la e livrá-la do cativeiro.

*****

— Acorda! Anda, não temos muito tempo!

Nadja abriu os olhos, assustada com a urgência contida nas palavras da amiga. Para sua surpresa, Rebeca estava em sua cela acompanhada de um dos machos que vigiavam as celas.

— O que foi, o que está acontecendo? — Perguntou confusa ao levantar e seguir o casal para fora.

— Temos que ir! As ervas não fizeram efeito,o meu ciclo veio e logo sentirão meu cheiro!

— Que ervas, que ciclo, do que está falando?

Rebeca puxou Nadja pelo braço e praticamente a arrastou pelos corredores. O macho as acompanhava calado, olhos atentos ao redor.

Ele estava visivelmente ansioso com o risco de serem pegos.

Nadja ouviu s palavras da amiga cada vez mais apavorada. De acordo com Rebeca, as fêmeas sangravam a cada lua cheia quando ficavam “maduras”, e há algumas luas, aquele macho que as acompanhava a ajudou com ervas que impediam o “amadurecimento”, porem, com o passar do tempo, o chá perdeu o efeito e Rebeca sentia cólicas, que indicavam a aproximação do sangramento.

Rebeca revelou para Nadja que a razão de elas ainda não terem sido vendidas era por serem mais novas, ainda não sangravam, e seu “valor de mercado” aumentava após o “amadurecimento”, pois, os seus hormônios seriam percebidos por todo macho que se aproximasse, e até mesmo um ômega seria capaz de identificá-las como Lunas.

Havia vários corpos pelo chão, resultado do envenenamento perpetrado pelo misterioso macho que as salvou.

Nadja ficou ainda mais assustada quando saíram do confinamento de concreto. A escuridão da noite as envolveu, fria e úmida. O macho segurou a mão de Rebeca e a puxou na direção da mata fechada.

Nadja teve que correr para acompanhá-los.

— Vamos por ali, após atravessarmos o rio, estaremos seguros.

Ela estava sozinha, no meio de uma mata escura, sendo perseguida por feras e a sua única amiga desapareceu de vista. Seu corpo fraco mal conseguia manter os passos, mas, ela sabia que se desistisse, nunca mais teria outra oportunidade de escapar.

Seus pés descalços insistiam em seguir além de suas forças. Era uma noite invernal, e ela vestia apenas uma bata fina e comprida de serviçal, ainda assim, suor escorria de sua testa fria.

O desespero era a única emoção que habitava em seu ser. Tudo aconteceu tão de repente, que não tinha tempo de raciocinar. Seguiu na direção do rio, sem saber que estava indo na direção oposta a da amiga.

— Lá está ela, peguem-na!

A voz de um dos mais cruéis carcereiros alcançou seus ouvidos e o seu corpo encontrou forças para fazê-la correr mais rápido. Um pequeno rastro de sangue era deixado por seus pés ensanguentados. Parou de repente e soltou um grito de pavor. Estava na beira de um penhasco, sem ter mais para onde correr.

Virou para a direção de onde tinha visto, e um macho alto saiu da mata fechada com um sorriso cruel nos lábios.

— Não tem para onde ir, garotinha! É melhor vir quietinha, se me obedecer direitinho, posso convencer o chefe a pegar leve no seu castigo!

Aquele homem a aterrorizava ainda mais do que o tal “chefe”. Seu olhar era predatório de uma maneira que sua mente inocente não concebia, mas que seus instintos sabiam ser perverso. Ela não podia voltar com ele, se o fizesse, a maldade que ele emanava a atingiria livremente antes que ele a entregasse ao líder do bando.

Nadja deu um passo para trás sem tirar os olhos daquele lobo cruel. Ele ergueu as mãos como quem se rende, e falou num tom debochado:

— Cuidado, vai acabar caindo e você não quer machucar esse corpinho lindo, quer? Não antes do papai aqui dar uma provadinha, não é?

Nadja sentiu o coração apertar com as imagens que a sua mente produziu do que aquele homem pretendia fazer com ela. Em um instante, ela virou-se na direção do abismo.

— Garota, não seja maluca, venha aqui!

Nadja fechou os olhos e pulou na direção da morte.

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