Dérik virou a mão de um lado para o outro, as garras cortando a carne do ventre do inimigo. O sangue quente e pegajoso escorria pelo antebraço até o cotovelo. O corpo caiu para trás, sem vida.
Vendo que o líder estava morto, os sobreviventes dos Lobos sem clã, que ainda podiam correr, fugiram deixando os feridos para trás.
Esse era o terceiro ataque de lobos sem clã contra o clã dos Lobos Negros em um mesmo ciclo lunar (um mês). Bandos de perdidos se uniam na tentativa de derrubar o Alfa e tomar o território. Há cinco anos, o boato de que Alfa Dérik não possuia mais a terceira forma se espalhou rapidamente, logo após a nomeação da Luna do clã.
— Vencemos, Alfa! — Beta Eli se aproximou, o corpo tão sujo de sangue quanto o do Alfa.
— Quantos perdemos dessa vez? — Perguntou Dérik com o olhar distante.
Eli abaixou a cabeça. Pensar nos irmãos mortos em batalha pesava em seu peito.
— Alfa, três machos foram mortos e Adanir foi gravemente ferido.
Dérik passou a mão pelo rosto, contrariado.
— Onde ele está?
— Foi levado para tratamento com o velho Agar, está desacordado.
Dérik sentia a sua alma cada vez mais obscura. Não havia esperança para o futuro de seu clã. Ele era um Alfa sem alma gêmea, sua terceira forma desapareceu tão logo ele nomeou uma fêmea do harém como Luna, há cinco anos.
Em uma medida desesperada, ao receber a visita de uma Luna de nascimento e seu companheiro, ele deixou o desespero falar mais alto e tentou burlar o destino. Drogou o casal para que copulassem em seu território na esperança de que assim as fêmeas conseguissem gerar filhotes, porém, tão logo o casal deixou o território, abortos se seguiram e a sombra da morte não mais deixou o clã.
Apenas um filhote vingou, um herdeiro para um clã às portas da extinção.
A Luna entronada por ele não tinha o poder de uma verdadeira Luna, e sua fera se recolheu ao vazio, abandonando-o desde então.
Os boatos eram verdadeiros, ele não mais atingia a temida terceira forma. Como um Alfa dedicado, defendia o seu clã com todas as forças, mas não havia esperança para o seu povo.
Somente um milagre poderia restaurá-los, e Dérik não acreditava em milagres.
*****
Nadja acordou com a estranha sensação de calor na sua face. Cinco anos sem ver a luz do dia tornaram os seus olhos e pele mais sensíveis. Sua mente estava confusa, sentiu-se perdida ao abrir os olhos com dificuldade. Seu corpo cansado e frágil na beira de um riacho, ladeado por árvores frondosas por ambos os lados. A bata que vestia estava molhada e os raios de sol transmitiam uma aconchegante sensação de calor.
Ela tocou o próprio rosto, incrédula. Pensou que morreria ao deixar o corpo cair do penhasco, mas, apesar de algumas dores pelo corpo maltratado, estava viva e inteira.
O som de pássaros cantando encheu os seus ouvidos com a bela melodia de um novo dia.
Havia ferimentos nos braços, pernas e pés, porém, apesar de dolorosos, não eram graves. Sentia frio, mas, o maior desconforto vinha de seu estômago vazio. Olhou em volta sem a menor ideia de onde estava ou para onde deveria ir.
Em qual direção ficava o acampamento dos sequestradores?
Como saber se não estaria caminhando de volta para o seu pesadelo?

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