O pomo de adão de Marcelo subiu e desceu incontrolavelmente.
Ele observava o queixo delicado de Bianca e os lábios apertados pela tensão, enquanto um desejo ardente começava a se formar no fundo de seus olhos.
Ele mexeu de leve o rosto debaixo da mão dela, pedindo em silêncio que o soltasse.
Sentindo o movimento, Bianca baixou a cabeça e o fuzilou com o olhar. Era um aviso nítido: comporte-se e fique quietinho.
Era uma expressão irritada, mas misturada com uma súplica silenciosa, como uma gatinha arrepiada tentando dar o bote, mas que no fundo estava cheia de medo.
Um sorriso fantasma passou pelo olhar de Marcelo. Ele realmente parou de se mover, focando na esposa sem piscar. Permitiu que a mão continuasse sobre sua boca.
Na escada, Patrícia pareceu acreditar na desculpa da filha. O barulho de passos soou novamente, desta vez indo para cima.
— Tudo bem, tome sua água e vá deitar. Não fique acordada até tarde. — A voz de Patrícia foi ficando cada vez mais distante.
— Tá bom, mãe, boa noite! — Bianca respondeu depressa.
Só quando ouviu o baque suave da porta do quarto se fechando no andar de cima é que Bianca pôde soltar um suspiro longo de alívio. Toda a tensão deixou seu corpo e ela desabou feito gelatina, esparramando-se em cima de Marcelo, completamente exausta.
Tinha quase morrido de susto...
Bianca era muito envergonhada. Jamais suportaria ser pega pela própria mãe naquela situação constrangedora.
Marcelo sentiu o peso da esposa amolecer contra si. Ele ergueu a mão boa, retirou gentilmente os dedos que ainda cobriam sua boca e a segurou pela mão.
Com a voz muito baixa, provocou:
— Senhora Amaral, apesar de tudo, eu sou o seu marido de direito. Por que parece que estamos... tendo um caso secreto?
O hálito quente do marido soprou perto das orelhas dela, enviando uma fisgada de arrepios.
As orelhas de Bianca ficaram vermelhas na mesma hora. Ela empurrou o peito dele para levantar o tronco, baixou o olhar e rebateu:
— Que besteira.
Enquanto falava, seu olhar desviou para o gesso no braço de Marcelo e ela sentiu um pingo de culpa.
Tinha sido puramente um reflexo.
— Não muito. Se não mexer, quase não dói. — Ele minimizou a situação.
— E a concussão? Ficou alguma sequela? Tem sentido tontura?
— Já está tudo bem. O médico disse que o período de observação acabou.
— E os outros machucados? Você se feriu em mais algum lugar além do braço?
— Apenas alguns arranhões e hematomas, mas já estão sarando.
Marcelo respondia obedientemente a cada pergunta que ela fazia, esbanjando boa vontade e paciência.
Ao ouvi-lo, Bianca lembrou do tempo que o marido passara exposto ao vento frio do lado de fora e voltou a se preocupar:
— Você ficou plantado lá fora naquele frio todo... Acabou se sentindo mal?
— Não fiquei lá muito tempo e estou me sentindo bem. — Marcelo negou com a cabeça e esfregou o queixo suavemente nos cabelos de Bianca. — E você? Correndo por aí descalça... E se pegasse um resfriado?
— Eu não sou tão frágil assim.

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