(Ponto de Vista de Olivia)
O brilho gélido das luzes fluorescentes do necrotério do Abrigo Médico do Bando Crista de Prata incidia sobre o semblante tranquilo da Matriarca Evelyn, enquanto minhas pernas ameaçavam fraquejar a cada passo, que se tornava mais pesado do que o anterior.
— Vovó... — Sussurrei, com a palavra presa na garganta.
As mãos dela estavam cuidadosamente cruzadas sobre o peito e os fios prateados de cabelo arrumados com dignidade, mas ela parecia menor de alguma forma, como se a presença imponente que sempre exigira respeito de toda a matilha tivesse se dissipado com a morte.
Logo, estendi os dedos trêmulos para tocar sua mão, e o frio da pele me fez estremecer, trazendo de volta a devastadora lembrança de quando toquei o corpo sem vida de Lily, como se duas perdas tão semelhantes estivessem arrancando de uma vez os pedaços que restavam do meu coração.
— Por que você quebrou a promessa de continuar viva? — Perguntei, com as lágrimas escorrendo livremente pelo meu rosto. — Você prometeu que me ajudaria a conseguir justiça pela Lily…
O silêncio que respondeu foi ensurdecedor, pois agora eu não tinha apenas perdido minha filha, mas também a única pessoa que acreditara em mim sobre o envolvimento de Victoria na morte dela, de modo que as duas pessoas que eu mais amava tinham sido levadas de mim.
O Dr. Marcus Fletcher, por sua vez, permanecia respeitosamente no canto, me dando espaço para lamentar.
— Sinto muito, Luna Winters. — Disse ele em tom suave, usando meu título formal. — Fizemos tudo o que podíamos.
Assenti sem realmente estar presente, emudecida pelo nó que me sufocava, e, ao deslizar os dedos pelas frágeis veias no pulso da matriarca, não pude evitar a pergunta que ecoava dentro de mim sobre o que teria marcado seus momentos derradeiros:
— Ela sentiu dor? — Consegui perguntar.
O Dr. Fletcher se aproximou, com o olhar tomado por compaixão.
— Não. O que pudemos concluir é que o coração dela parou de repente, o que significa que deve ter acontecido de forma rápida.
Nesse instante, a porta do necrotério se abriu, e não precisei confirmar com os olhos quem entrava, porque o odor de Ethan, mesclando pinho e ar de inverno, tomou o ambiente, trazendo consigo também a essência inconfundível da dor.
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(Ponto de Vista de Ethan)
A visão do corpo da minha avó me atingiu como um golpe físico e, depois de perder Lily, essa segunda morte parecia a prova de que o universo estava determinado a arrancar de mim todos que eu amava.
Quase sem perceber, minhas pernas avançaram por conta própria, enquanto minha mente ainda travava uma batalha para aceitar a realidade diante de mim, e a serenidade da vovó fazia parecer que, a qualquer momento, ela abriria os olhos para me repreender por alguma travessura.
Ao lado do corpo, Olivia tremia em soluços silenciosos, e, movido pelo instinto, estendi a mão para consolá-la, mas ela recuou de imediato, fazendo seus olhos verdes se enrijecerem ao se encontrarem com os meus.
— Não faça isso… — Avisou, quase num sussurro.
Bernard Sheppard, o mordomo leal da minha família, deu um passo à frente do ponto onde aguardava próximo à parede, mas naquele dia parecia décadas mais velho, com a postura outrora impecável dobrada sob o peso da dor.
— Rei Alfa. — Chamou ele formalmente, apesar de nos conhecermos desde a minha infância. — Sinto que devo informar as circunstâncias que antecederam o falecimento da Matriarca Evelyn.

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