Mariela havia se mudado para a casa deles. Daniel sabia que isso era absurdo — mas se o escândalo viesse à tona, a culpa cairia sobre ele, não sobre ela.
E Alana havia usado exatamente esse ponto como alavanca.
Ele desligou o telefone sem responder a Mariela. Ficou parado, olhando para o nada, com aquela melancolia estranha que ultimamente não saía dos olhos.
Ela está mesmo decidida.
Até aquele momento, havia uma parte dele que não acreditava de verdade. Mas agora estava claro — Alana não estava blefando. Ela queria o divórcio, foi buscar o que precisava para garanti-lo, e não havia vacilado nem uma vez no processo.
Ela claramente não percebia, porém, que não tinha o direito de simplesmente ir embora assim.
Bruno bateu na porta do escritório e entrou com um documento na mão.
— Sr. Daniel, precisa da sua assinatura.
Daniel assinou sem tirar os olhos da folha e, na sequência, perguntou com a voz completamente neutra:
— Como está a família de Alana?
Bruno escolheu as palavras com cuidado.
— O pai dela tem uma reputação cada vez pior no setor. Sem a proteção do senhor, as coisas têm piorado rapidamente. Os problemas com Edgar consumiram a maior parte da energia do Sr. Eliote — e ele acabou ofendendo algumas figuras importantes que só conhecia por causa das suas conexões. Agora que Edgar foi solto... já é tarde demais para recuperar o terreno perdido.
Bruno fez uma pausa discreta antes de continuar:
— O Sr. Eliote deve ter percebido isso. Nos últimos dois dias, tem entrado em contato comigo com frequência. Quer se encontrar com o senhor.
O olhar de Daniel assumiu lentamente um tom irônico.
Sem mim, o que sobra da família deles?
Ele devolveu o documento assinado com um movimento seco.
— Que venha, então.
Bruno piscou.
— Quando, senhor?
Daniel ergueu levemente uma sobrancelha.
— Depende.
Bruno não perguntou do quê. Aprendeu há muito tempo que, com Daniel, algumas respostas chegam sozinhas — na hora certa.
Sem carro, Alana levou quase duas horas para ir da Mansão até o Grupo Scroop de aplicativo. Chegou às 10h30, com os papéis do divórcio dentro da bolsa e uma determinação que havia custado cara demais para ser desperdiçada agora.
Para sua surpresa, a recepcionista da entrada apenas sorriu e disse:
— Pode subir diretamente, senhora.
Direto. Sem espera, sem intermediários.
Alana entrou no elevador. Enquanto os andares subiam no display, uma contração involuntária passou pelas suas pálpebras. Ela levou os dedos ao canto do olho, respirou fundo, e tentou ignorar o presságio que crescia silenciosamente no peito.
Eu cumpri tudo o que prometi. Desta vez é diferente. Desta vez vamos assinar.
A porta do último andar se abriu.
Ela bateu duas vezes na porta do escritório.
— Entre.
A voz dele atravessou a madeira como sempre havia atravessado — grave, ressonante, o tipo de voz que ocupa o espaço inteiro de um cômodo. Alana respirou fundo uma última vez e empurrou a porta.
Era quase meio-dia. A luz entrava crua e direta pelas janelas do chão ao teto, e Daniel estava exatamente onde ela imaginava — de pé diante delas, de costas para ela, com a postura que nunca mudava. A camisa branca, o cabelo levemente despentado sobre a testa, a silhueta que ela havia aprendido a reconhecer no escuro.
Ele se virou levemente quando a ouviu se aproximar.
— A vice-presidente concordou em retornar ao trabalho hoje.
Alana fechou a porta e caminhou até ele. Parou a alguns passos de distância.
— O acordo era que você assinaria os papéis do divórcio quando ela voltasse.
Daniel se virou de vez, ficando de costas para a luz. Com o rosto parcialmente na sombra, seus traços pareciam ainda mais fechados — impossíveis de ler.
Ele não respondeu. Apenas a olhou.
O silêncio durou tempo demais.
— Daniel — ela disse, e a firmeza na própria voz a surpreendeu —, você não vai voltar atrás, vai?

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