Renata
Eu estava parada na porta do escritório do Marcelo, o coração batendo tão alto que eu juro que ele poderia ouvir. Lara estava ali, de pé na frente dele, segurando dois gizes de cera como se fossem um escudo, e eu senti o chão sumir debaixo de mim. Pronto, Renata, acabou. Ele vai te demitir e você vai virar a rainha do brigadeiro na rua. Mas antes que eu conseguisse terminar meu discurso de “me perdoe, senhor Almeida”, ele virou os olhos pra mim, calmo — calmo demais pro meu gosto — e com um leve ar de riso. Marcelo não sorri. Deve estar comemorando por saber que agora pode me demitir.
— Leve-a para a recepção. Deixe com a Duda e volte para sua sala.
Pisquei, atônita. O quê? Não teve bronca, não teve “sua vida não existe aqui”, não teve demissão com fogos de planejamento. Só... isso? Minha boca abriu para responder “sim, senhor” por reflexo, mas minha cabeça gritava: Isso é uma armadilha, Renata. Ele está te enrolando pra te esganar depois.
— Sim, senhor — consegui dizer, a voz saindo meio rouca. Peguei a mão da Lara rápido, quase arrastando ela pra fora antes que ele mudasse de ideia. Ela me olhou com aquela carinha de “fiz besteira, mamãe?”, e eu só balancei a cabeça, sussurrando:
— Quietinha agora, pequena. A gente conversa depois.
Desci com ela pro térreo. O elevador parecia levar uma eternidade. Meu estômago estava revirado, e eu não parava de imaginar o que vinha por aí. Marcelo Almeida não é do tipo que deixa passar um deslize desses. Cinco anos dançando conforme a música dele, e eu nunca tinha pisado fora da linha — até hoje. Parabéns, Renata, você escolheu o pior dia pra virar rebelde.
Cheguei na recepção e praticamente joguei a Lara pra Duda, que me olhou com uma mistura de surpresa e pena.
— Duda, fica com ela, por favor. O Marcelo mandou. Eu... eu explico depois — falei, as palavras tropeçando umas nas outras.
— Claro, Renata. Tá tudo bem? — ela disse, já puxando a Lara pra perto com um sorriso.
— Tá ótimo. Só estou esperando a guilhotina — retruquei, tentando rir, mas soou mais como um grunhido. Voltei pro elevador, as pernas moles, e subi pro meu andar rezando pra algum santo que eu nem sabia o nome.
Quando cheguei na minha mesa, a porta do escritório dele ainda estava fechada. Sentei, mas era como me sentar em cima de alfinetes. Minhas mãos tremiam enquanto fingia organizar uns papéis, esperando o veredito. Ele vai me chamar. Vai me demitir. Ou pior, vai me humilhar primeiro e depois me demitir. Eu já estava ensaiando minha saída triunfal: “Obrigada pelos cinco anos, senhor Almeida. Vou sentir falta de ser seu robô particular.”
A porta dele abriu alguns minutos depois e eu quase pulei da cadeira. Ele saiu, o terno impecável como sempre, a cara de quem sabe de tudo, e parou na frente da minha mesa. Meu coração disparou, mas ele não parece prestes a me demitir. Apenas me encarou por um momento e então, de forma formal, perguntou:
— Por que a Lara estava na minha sala?
Engoli em seco, o cérebro girando para encontrar uma resposta que não me enterrasse mais. Porque ela é uma ninja do caos e eu sou uma mãe fracassada, senhor? Mas o sarcasmo não me salvaria agora.
— Senhor Almeida, eu... ela não tinha onde ficar hoje. A creche fechou por causa de um problema, e eu não tinha ninguém pra ficar com ela. Tentei mantê-la escondida, mas... ela é curiosa, sabe? Eu juro que isso não vai acontecer de novo — falei, as palavras saindo apressadas, os olhos baixos porque eu não tinha coragem de encará-lo.
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