RENATA
Fui para o quarto dela, ainda de pijama, e abri a porta devagar. Lá estava minha menina, dormindo como um anjinho, os cachinhos castanhos espalhados no travesseiro. Ela parecia tão em paz que quase senti pena de acordá-la. Quase.
— Ei, pequena, hora de levantar! A creche te espera — falei, sacudindo-a de leve, tentando soar animada.
Lara abriu um olho, me olhou como se eu fosse o inimigo número um, e soltou um gemido dramático.
— Não vou pra creche hoje — declarou, puxando o cobertor por cima da cabeça.
Pisquei, confusa.
— Como assim "não vou"? Claro que vai, mocinha. Levanta daí antes que eu te arraste pelo pé — retruquei, rindo, mas já sentindo um frio na espinha. Criança tem radar pra jogar bomba na nossa vida na pior hora possível.
Ela enfiou o rosto no travesseiro e murmurou algo que soou como “não tem aula”. Franzi a testa e puxei o cobertor dela.
— Lara, fala direito. Por que não tem aula? — tentei manter o tom leve, mas meu coração já acelerava.
— A tia disse que vão quebrar tudo lá. Não lembro — resmungou, claramente querendo voltar a dormir.
"Quebrar tudo?" Meu estômago deu um nó. Corri para o quarto, peguei meu celular na mesinha e fui direto pra cozinha, onde Helena estava fazendo café. Minha melhor amiga — e salvadora oficial da minha sanidade — parecia calma demais pro meu gosto.
— Helena, que história é essa da creche? A Lara tá dizendo que não tem aula, e eu achando que era só preguiça dela — falei, já abrindo as mensagens no celular.
Helena virou pra mim, soprando o café na caneca com uma tranquilidade irritante.
— Eu te mandei mensagem ontem à noite, Renata. Um cano estourou na creche, alagou tudo. Eles avisaram que hoje e amanhã vai ficar fechado — disse, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Revirei as mensagens, o pânico subindo. Nada.
— Helena, eu não recebi nenhuma mensagem! — reclamei, mostrando a tela pra ela como prova.
Ela deu de ombros, pegando o celular dela pra conferir.
— Olha aqui, mandei às 20h. “Creche fechada amanhã, cano estourou.” Tá enviado. Seu celular que tá de palhaçada — disse, jogando a culpa no meu aparelho velho.


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