Ouvindo o sinal de ocupado do telefone, Daniela Peixoto chorava ao vento.
Isso...
Era mesmo a mãe dela?
Daniela sempre pensou que só precisaria passar uma noite no Quintal da Brisa. Não esperava que Susana Cavalcanti, essa mãe que só arruma problemas para a filha, a obrigaria a ficar ali até se recuperar de verdade.
Era como se estivesse entre a cruz e a espada, sem ter para onde fugir.
Deitada na cama, virou de um lado para o outro até tarde, só pegando no sono de madrugada.
No dia seguinte.
Acordou apoiando a mão na cabeça latejante.
Daniela soltou um suspiro, seguida de um palavrão.
Droga!
Por que parecia que, depois de dormir uma noite inteira, a cabeça só ficava mais tonta?
Será que Samuel Rodrigues realmente entendia de medicina? Vai que ele acabava matando ela sem querer?
Sentou-se na cama e pulou duas vezes, batendo no colchão com o punho.
Não dava para negar: o colchão era realmente duro.
Imaginava como Samuel dormira na noite anterior, com aquela queimadura enorme nas costas. Provavelmente, só conseguira dormir de bruços.
Depois de pensar a noite inteira, Daniela decidiu que, por ora, não tentaria fugir.
Pela linha do tempo de sua vida anterior, Ceci só faria o transplante de rim depois do vestibular, então, por enquanto, estava relativamente segura.
Ainda achava que precisava melhorar sua imagem.
Conhecendo Samuel Rodrigues, sabia que ele era uma pessoa justa; enquanto ela se mostrasse inofensiva e íntegra, ele não seria capaz de perder completamente a humanidade.
Pelo menos, em sua vida passada, ele havia encontrado outro doador e não a obrigou, como Fernando Peixoto, a doar o rim.
Era sábado, e Samuel ainda não havia acordado.
Daniela ficou pensando se as queimaduras nas costas dele teriam melhorado.
De repente, lembrou que, antigamente, toda vez que Samuel ficava doente, ela preparava, escondida, um doce de castanha d’água para ele e pedia para alguém levar ao Quintal da Brisa.
Com medo que ele não aceitasse, dizia que tinha sido Ceci quem fizera.
Numa dessas reuniões de família, ela e Samuel sentaram juntos à mesa. Havia vários pratos deliciosos, mas ele só tocou no doce de castanha d’água.
Parecia que ele realmente gostava daquele sabor.

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