Com um toque de ironia na voz.
A voz do homem era profunda e aveludada. Pela proximidade, ele provavelmente estava inclinado para frente.
Como explicar, então, o hálito quente que se espalhava sobre a orelha dela? O frescor gélido do seu perfume envolvia Daniela Peixoto por trás, deixando-a completamente paralisada.
— CLANG!
Ao se virar abruptamente, ela acabou esbarrando na bandeja que Samuel Rodrigues segurava.
A bandeja caiu no chão, quicou duas vezes, mas a qualidade era tão boa que não apresentou nem um arranhão.
Daniela ficou constrangida. Apressou-se em se abaixar para pegar a bandeja.
— Por que você desceu? Vai sair?
Ao ver que ele tinha trocado de roupa e vestia um terno impecável, Daniela perguntou, surpresa.
— Sim.
Samuel ergueu o pulso, conferindo o relógio.
— Viagem a trabalho. O voo é às sete. Volto daqui a uma semana.
— Viagem a trabalho?
Daniela ficou atônita.
Samuel, com os olhos levemente semicerrados, não deixou de notar o leve traço de decepção que atravessou o rosto dela.
O jeito vulnerável de Daniela e sua ansiedade em agradá-lo o divertiam, e por isso ele falou com ainda mais paciência:
— Lembre-se de passar o remédio nos horários certos nesses dias. Vou te lembrar.
— Tá bom. — Daniela respondeu baixinho, depois perguntou: — Então posso voltar pra casa?
— Pode. — Samuel sorriu de leve.
Mal terminou de falar, Daniela já explodia de alegria em pensamento, como se gritasse ao pé do ouvido dele.
{Finalmente! Vou escapar desse cativeiro!}
{Espera aí! Se eu voltar, vou ter que encarar de novo a Cecília Peixoto, aquela cobra de duas caras!}

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