Susana Cavalcanti falou séria:
— A família Peixoto criou aquela menina, Ceci, por vinte anos. Já fizemos mais do que o suficiente por ela. Agora que já é maior de idade, não temos mais obrigação de sustentá-la. Dê um dinheiro a ela, que vá cuidar da própria vida.
Susana Cavalcanti sempre foi mais movida pela emoção do que pela razão, mas justamente com Ceci, essa filha, nunca conseguiu criar laços. Foram quinze anos convivendo sob o mesmo teto, e nada sentia.
Tudo mudou numa apresentação em outra cidade, quando Susana, tentando salvar um cachorro de rua, acabou sofrendo um acidente e perdeu muito sangue.
Ela possuía um tipo sanguíneo raro e quase não sobreviveu. Foi uma jovem voluntária que, por acaso, estava ali e se ofereceu para doar sangue, salvando-lhe a vida.
Colegas do coral notaram a semelhança entre a jovem e Susana, brincando que talvez fosse uma filha perdida. Susana, desconfiada, pediu uma amostra de sangue e fez um teste de DNA.
A revelação do exame trouxe à tona quinze anos de vidas trocadas e injustiças.
E, enfim, ela entendeu o motivo de nunca ter se sentido conectada àquela filha que criara.
Era o instinto materno.
Sua verdadeira filha sofria fora de casa, enquanto outra ocupava o lugar que era dela. Como poderia sentir carinho por alguém que, mesmo sem querer, tomou o lugar de sua filha?
Gustavo Peixoto não conseguia aceitar aquilo.
— Mãe, mesmo que a Ceci não seja filha de sangue, ela cresceu conosco. Depois de tantos anos, já existe uma ligação. Será que a família Peixoto não pode abrir espaço para mais um prato à mesa?
— Está me acusando de ser fria? — Susana ficou vermelha de raiva, surpresa com a teimosia do filho.
Gustavo apertou os lábios, sem responder, mas no fundo achava a mãe incompreensível, sem um pingo de sensibilidade.
— Dany! Vamos embora! Não há mais lugar para nós duas nesta casa!
Sentada num canto, Daniela Peixoto permaneceu em silêncio durante toda a discussão.
Sentia um turbilhão de emoções.
Era grata por ter uma mãe que a amava de verdade, mas, ao mesmo tempo, sentia-se decepcionada com os quatro homens da família Peixoto.
Nunca imaginou que conquistar aceitação e carinho da família fosse algo tão difícil.
Quando acreditou que finalmente teria seu espaço no coração do irmão mais velho, e se sentiu feliz por isso, a realidade veio e lhe deu um golpe.
Quando interesses pessoais estavam em jogo, o coração do irmão ainda pendia para o lado de Cecília Peixoto.
E então, para quê insistir?

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