Samuel Rodrigues sabia que estava sonhando, mas aquele sonho era incrivelmente real.
A chuva caía pesada.
O céu estava enevoado, como lágrimas presas no coração de quem se despede.
Linhas cinzentas riscavam a visão; ao longe, tudo era indistinto. Em meio à multidão difusa, uma jovem de vestido branco se agachava, ajoelhada sob o véu de chuva.
A água encharcava seu corpo inteiro; parecia um cachorrinho abandonado, tremendo de frio sob a tempestade.
Uma pontada atravessou o coração de Samuel.
Sentiu-se sufocar, quis correr para abraçar aquela garota, mas não conseguia se mover.
Um Rolls-Royce alongado passou, e no vidro escurecido, em meio ao vapor do aguaceiro, refletiu-se um rosto idêntico ao seu.
— Sr. Samuel, o senhor não vai mesmo? A senhorita Dany está tão sozinha... O jantar de noivado dela acabou virando motivo de piada na cidade inteira. Ouvi várias socialites dizendo que ela não tem vergonha alguma...
Uma raiva surda e quase selvagem cortou o peito de Samuel Rodrigues, misturada a uma dor amarga, aguda, que parecia corroer-lhe o coração.
Ele sentiu pena.
Uma pena que beirava a loucura.
No entanto, ouviu claramente sua própria voz, fria, vinda de dentro do carro:
— Ela colheu o que plantou.
Colheu o que plantou.
E agora, ele também não era igual?
Com um sobressalto, Samuel Rodrigues agarrou o travesseiro e despertou de seu pesadelo.
Abriu os olhos, o corpo banhado em suor frio. Expirou devagar e voltou a se deitar na cama.
Com o braço cobrindo a testa, ficou imóvel por um longo tempo, até pegar o relógio deixado na cabeceira para conferir as horas.
Oito em ponto.
Lá fora, o tempo ainda estava sombrio, e uma garoa fina começava a cair.
Samuel Rodrigues levantou-se e desceu as escadas, percebendo que todos os empregados o olhavam de um jeito estranho. Franziu o cenho, desconfiado.
Durante o café da manhã, notou que o mordomo lançava-lhe olhares repetidos, como se quisesse dizer algo, mas hesitava. Por fim, Samuel fechou a cara:
— Seu Fábio, se tem algo a dizer, diga logo.
— Não é nada, senhor.
— Nada? Então por que fica me encarando?
O mordomo apressou-se em explicar:
— É que estou feliz pelo senhor, Sr. Samuel. Às vezes, ser amado intensamente por alguém que não se ama pode ser um fardo.
O coração de Samuel deu um salto desconfortável, um prenúncio incômodo de que algo não ia bem. Mas não quis aprofundar o assunto, tomado por um medo inexplicável.

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