Ao encarar o olhar do homem, Daniela Peixoto ficou um pouco atônita.
Nesse instante, ouviu-se um estalo vindo do caminhão de mudanças. O painel desmontado do piano deslizou repentinamente pela lateral do veículo, caindo em direção a Daniela Peixoto.
— Pum! —
A dor esperada não veio. O homem esticou o braço e protegeu a cabeça dela.
...
— Pode deixar o piano nesse lugar mesmo.
Ela guiou os carregadores até a sala principal, pagou a conta e abriu a porta para se despedir.
Assim que chegou à entrada, avistou uma silhueta parada no canto da parede.
Samuel Rodrigues a fitava com um olhar repleto de ressentimento.
Daniela Peixoto franziu a testa, ignorou o olhar dele e fechou a porta com um estrondo.
Samuel Rodrigues: — ...
O homem apertou os lábios com força. O charuto recém-retirado do bolso foi esmigalhado entre os dedos.
O braço ainda sangrava, ele propositadamente não cuidou do ferimento, esperando que Daniela Peixoto percebesse e o deixasse entrar.
Mas aquela mulher simplesmente o ignorou.
Ela não demonstrou nem um pingo de compaixão, sequer se deu ao trabalho de fingir aquela antiga gentileza forçada!
Samuel Rodrigues ficou parado, confuso, do lado de fora da porta.
Em seus olhos intensos, travava-se uma tempestade de pensamentos, até mesmo lampejos de loucura.
Ela queria ir embora?
Queria deixá-lo?
Não, ele não permitiria que isso acontecesse.
Se ela realmente insistisse em partir, ele não hesitaria em repetir o pesadelo de outra vida.
Bastava trazê-la de volta à força, mantê-la presa, e assim ela nunca mais o deixaria.
Porém...
Samuel Rodrigues sentiu a respiração falhar.
Uma dor aguda percorreu seu peito, como se o ar não conseguisse passar pela garganta até o coração.
Ele percebeu que, se fizesse isso, talvez garantisse que ela nunca escapasse, mas, ao mesmo tempo, ela jamais voltaria a amá-lo.
Sentiria apenas medo, apenas ódio...
De repente, Samuel Rodrigues levou a mão ao peito, sufocado por um aperto que o impedia de respirar.
A cabeça girava, um zumbido persistente nos ouvidos. Ele se apoiou na parede com o braço ferido, abriu a boca como um peixe fora d’água, lutando por ar.
Só quando o zunido cessou, seus olhos voltaram a brilhar como se tivessem recuperado a luz após a morte.
No fundo, ele descobriu que o medo de perdê-la era muito maior do que apenas perdê-la fisicamente.
Ele temia perder o amor dela.

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