— Ela não colou!
Uma voz fria e serena interrompeu o burburinho.
Todos olharam para o canto da sala e só então perceberam que quem falara fora Narciso Farias.
Narciso Farias era conhecido por seu jeito reservado.
Entre os colegas, a imagem dele era de um rapaz bonito, mas de personalidade difícil, um aluno brilhante vindo de família humilde.
— Como assim não colou? — Zoé Barbosa, que até então só concordava com os outros, ficou exaltada ao ouvir alguém contrariá-la. — Daniela Peixoto passou três anos do ensino médio entre as piores notas da escola. No semestre passado, ela nem estava entre os quinhentos melhores. De repente, em duas provas, ela dá esse salto absurdo? Eu, sinceramente, não acredito.
— Se não me engano, nesta prova mensal, Narciso Farias e Daniela Peixoto ficaram na mesma sala. Vai ver ela copiou as respostas dele.
— Com certeza foi isso!
— Vamos falar com o professor!
— Que barulho é esse? — Naquele momento, uma voz fria ecoou do corredor.
Tomás Serra, com uma pilha de provas nos braços, estava parado à porta, encarando-os com severidade.
— Vocês aí, venham aqui fora comigo.
...
Quando Daniela Peixoto foi chamada por Tomás Serra para o corredor, todos os melhores alunos da turma A já estavam lá.
Incluindo Narciso Farias e Cecília Peixoto.
Cecília estava com os olhos inchados de tanto chorar, e colegas tentavam consolá-la.
Quando Daniela se aproximou, os alunos da turma A a olharam com evidente hostilidade. Ninguém acreditava que o resultado daquela prova pudesse ser dela.
Tomás Serra lançou um olhar pelo grupo, coçou as costas com a régua que segurava e perguntou:
— Todos aqui? Olhem para a última questão extra da prova. Vocês erraram. Agora têm tempo para refazer o cálculo e me dar a resposta correta.
Daniela Peixoto, alheia à hostilidade dos colegas, concentrou-se totalmente na prova. Em pouco tempo, terminou o cálculo e ergueu a cabeça, confiante.
Tomás Serra a encarou.
— Qual é a resposta?
— n = 1.
— Foi o mesmo que calculei — disse Narciso Farias.
Logo depois, outros colegas também chegaram à resposta, enquanto alguns ainda se debatiam, frustrados.
— Daniela Peixoto, explique para todos como resolveu essa questão.
Chamada pelo professor, Daniela não hesitou e começou a explicar o raciocínio que usara.
— Todos entenderam?
Tomás Serra sorriu de canto ao terminar de ouvir.
Narciso Farias já compreendia, e alguns outros demonstravam expressão de quem finalmente entendera.
Tomás Serra então olhou para os alunos da turma A, ainda contrariados:
— Por que Daniela Peixoto foi a primeira a resolver, enquanto vocês não conseguiram?
— Em vez de perder tempo questionando o mérito dos outros, deveriam se dedicar mais aos estudos!
O tom severo de Tomás Serra fez vários ficarem vermelhos de vergonha.
Cecília Peixoto, que havia iniciado toda a confusão, sentiu-se especialmente humilhada.
Uma sensação aguda de ameaça tomou conta dela.

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