— Deixe aí na mesa, mãe. A lição está tomando o meu tempo, mais tarde eu dou uma olhada.
Omitir que não havia pisado na sala do professor particular naquela tarde era crucial. A fim de sustentar o álibi escolar inabalável perante o olhar escrutinador da família, devorar aquelas apostilas acumuladas era o primeiro passo.
A verdade crua era que o desejo voraz de obliterar os recordes acadêmicos daquela desprezível garota consumia suas noites de sono. Um delírio frequente consistia em prensar o rosto de Tainá contra o assoalho e pisoteá-la com fúria.
Infelizmente, os feitos de Tainá eram impenetráveis. Esmagar a barreira astronômica de setecentos pontos nos exames?
Além de suas horas furtivas atuando nos conluios de Hélder Gusmão, o prejuízo acumulado pelo mês que passara fora da escola tornava qualquer tentativa de ultrapassá-la um fracasso inútil, mesmo se dedicasse o resto de sua alma aos cadernos.
Subjugá-la nos estudos tornara-se uma fantasia distante. Portanto, a destruição física e moral parecia a única sentença eficaz para tirá-la daquele trono.
Rangendo os dentes com força, a repulsa entorpecia seus sentidos.
— Meu amor, os seus traços estão tão abatidos hoje. Por favor, faça uma pausa. A sopa precisa ser consumida quente.
Seus estudos não exigem tanto sacrifício, só dê o seu melhor. Jamais permita que as comparações com a...
As cordas vocais de Viviane paralisaram abruptamente, congeladas pelo choque da própria desatenção impetuosa.
Pretendia exortar que a filha não precisava disputar atenções com aquela pirralha asquerosa. Contornou com leveza: — Jamais precisa se equiparar com aqueles alunos mais competitivos, basta continuar assimilando o básico.
O simples eco da memória de Tainá avivava um turbilhão de culpa em sua alma quando pousava o olhar sobre Laura.
Afinal, a excelência intelectual daquela bastarda florescera sobre os pilares suntuosos da Família Torres, abrigada da miséria, cultivada entre tutores de elite e infraestrutura milionária.
O que restou para sua Laura? Arrancar a própria sobrevivência em vilarejos abandonados de miséria excruciante, com uma educação sucateada que a massacrava com deficiências diárias.
Aquela rebelde, em vez de atuar como alicerce protetor e orientador da irmã, decidiu plantar conflitos tóxicos assim que o verdadeiro sangue retornara ao lar.
A expulsão dramática e definitiva sob a tempestade não fora nada além da mais pura e satisfatória justiça.
Com essas ponderações, o leve remorso que cutucara sua consciência após a ruptura ruiu, dissipando-se rapidamente no ar daquela noite.
Captando a atmosfera densa, Laura desvaneceu a carranca sinistra de ódio e recompôs-se com um sorriso infantil. — Eu continuarei me esforçando o máximo que eu puder, mãe.
Agarrando a luxuosa porcelana em mãos trêmulas, Laura recolhia goles medidos de sopa com uma colher dourada.
Como espectadora amorosa, Viviane a contemplava sorridente.
A calmaria afetuosa despencou no momento em que um ruído agudo irrompeu da tela do celular.
— O aparelho pode esperar, consuma seu prato antes.
A mão firme de Viviane impôs um bloqueio veloz, agarrando o pulso trêmulo da filha a milímetros do telefone.
— Mas quem é o indiscreto perturbando essas horas, francamente.
Com um clique seco, ela encerrou a chamada sem dó.
A mão cedeu, paralisada pelos espasmos involuntários que derrubavam quase tudo que agarrava.
Ter aquele escândalo vergonhoso vazando livremente para os jornais da manhã? O horror de confirmar à dinastia Torres que ela contratava mercenários do esgoto para sujar a reputação familiar?
Os cretinos dos marginais haviam traído os próprios pactos blindados, entregando-a direto ao matadouro policial.
Era a profecia maldita do submundo; o instinto traiçoeiro escorrendo em sangue de ratos não valia um centavo.
O fundo bancário. Um estrondo iluminou-lhe a sanidade. Se a fumaça escalou pela prisão, montanhas de dinheiro serviriam de tampões precisos para lacrar aquelas vozes insuportáveis, sem sombra de dúvidas.
Encapuzada pelo longo sobretudo, deslizou às pressas até os andares inferiores. — Mãe, terei de realizar uma visita de emergência. Apenas aguarde o retorno, tudo bem?
A mãe paralisou diante das cortinas pesadas observando o negro horizonte com severidade. — As estradas já estão perigosas e obscuras! Qual seria a desculpa bizarra de hoje?
— Uma urgência irrisória. Trata-se do apoio urgente a uma amiga, eu retorno brevemente.
Lançando falsas desculpas, despencou apressada sobre os teclados discando a ligação direta à Adalberto.
Adalberto já cruzara o limite raso da cumplicidade íntima, e os horários sombrios dispensavam seguranças barulhentos; um motorista particular com instintos sombrios bastava.
— Qual criatura descompensada arranca pessoas na escuridão? Isso é inviável no dia seguinte, ou não?
O absurdo noturno acendia todas as barreiras céticas de Viviane que bloqueavam fisicamente a rota até as escadas externas.

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