Na manhã do dia seguinte, como de costume, Laura foi a primeira a acordar. Ela começou fazendo a faxina, esfregando o chão e lavando a privada.
O banheiro dali não chegava aos pés do de sua casa. O espaço era estreito e sem ventilação, e como muita gente usava durante a noite, o fedor era terrível.
Depois, ela precisava encher a água e espremer a pasta de dente de todas as outras detentas.
Quando as outras acordavam, ela ainda tinha que ir lá e arrumar cada uma das camas.
Juntava todas as roupas sujas — as meias fedidas e as calcinhas usadas — e as colocava no cesto. Ela não teria tempo para lavá-las de imediato, e teria que esperar até voltarem do banho de sol.
Estava exausta, mas não ousava parar. Ela deu uma espiada discreta nas demais detentas.
Vendo que ninguém estava prestando atenção nela, abrandou um pouco os movimentos, buscando ganhar fôlego.
"Ah", ela suspirou internamente, "como eu vim parar aqui?".
Embora tivesse crescido no campo, seus pais adotivos nunca a deixaram fazer tarefas pesadas. Todo o trabalho sujo e exaustivo, eram eles que faziam, o tempo todo.
Depois que ela foi para a Família Torres, havia adentrado no paraíso.
Havia empregados ao redor para servi-la, comia iguarias em todas as refeições e usava as melhores roupas todos os dias.
A mesada que ganhava era uma quantia que, em toda a sua vida no campo, ela nunca tinha visto.
Havia também a indulgência irrestrita de seus familiares.
Seu pai, o presidente de um grande grupo corporativo; sua mãe gentil e bela; e irmãos bonitos e talentosos...
O lógico seria simplesmente desfrutar de tudo.
Mas em vez disso, ela ficou dominada por uma inveja profunda da irmã, Tainá, que sempre vivera naquele ambiente desde o nascimento.
Por que ela pôde viver nesse ambiente desde pequena enquanto eu tinha que passar dificuldade no campo?
Por que ela era tão nobre, tão radiante, e ainda por cima tinha boas notas e múltiplos talentos?
Por que ela sempre era o centro das atenções?
E eu tinha que ser tímida, patética, e me sentir inferior. Por quê?
Tudo o que ela tinha, por direito, deveria ser meu.
Não, eu precisava arrancar aquilo dela. Precisava tomar tudo e pisá-la na lama, sem falta.
E então, ela começou a colocar seu plano de usurpação em prática... passo a passo até acabar aqui.
Laura espantou as memórias no momento em que a hora do café da manhã chegou.
Eram os guardas que entregavam a comida, então nenhuma detenta ousava criar problemas. Elas faziam fila uma a uma para receber suas porções.
Cada pessoa recebia uma tigela de mingau ralo, um pão cozido no vapor e um punhadinho de picles.

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