De acordo com as regras, ninguém da família podia assistir à cremação no crematório.
Florence Winters, no entanto, pagou o que foi necessário. Com passos lentos, ela empurrou a maca de ferro gelada para dentro da sala de cremação.
O ar tinha um cheiro metálico de queimado, e no feixe de luz que atravessava a janela, partículas de cinza flutuavam no ar.
Talvez fossem restos de ossos.
Em breve, sua querida filha também se tornaria isso.
Vestida com um longo vestido preto, Florence parecia ainda menor do que era. Nem mesmo o menor tamanho escondia sua silhueta magra e abatida. Seus olhos, inchados e vermelhos de tanto chorar, estavam agora estranhamente serenos.
Ela passou a mão pelo lençol branco que cobria o corpo imóvel e pálido da filha e, cuidadosamente, colocou na palma da mão fria da menina duas estrelas de papel cor-de-rosa.
— Estela, espera a mamãe.
Quando o tempo acabou, um funcionário aproximou-se e puxou Florence gentilmente para o lado. Ele ergueu o lençol, revelando o rosto da menina.
Estela tinha oito anos, mas era tão pequena e magra que suas costelas estavam claramente visíveis. Abaixo delas, uma cavidade profunda parecia gritar o descaso.
Ao ver o corpo frágil, as lágrimas de Florence voltaram a escorrer. Ela se culpava. Não tinha protegido Estela como deveria.
— Meus pêsames. — Disse o funcionário em um tom baixo. — Pelo menos… Pelo menos sua filha salvou outra criança. O rim dela deu uma nova vida a um menino. Ele vai viver feliz, talvez como sua filha teria vivido.
Os olhos de Florence se estreitaram, revelando um brilho gelado. Ela deu um sorriso amargo, carregado de sarcasmo.
— Ah, eu sei. Esse menino é o filho bastardo do meu marido. Agora ele e a mãe do garoto estão dando uma festa de aniversário para ele. Uma grande festa. Você sabia disso? Hoje também é o aniversário da minha filha.
O funcionário ficou sem palavras, sem saber como consolar aquela mulher devastada.
Florence olhou para Estela mais uma vez e deu um sorriso pálido:
— Pode começar. Não atrase o horário. Espero que minha filha tenha pais melhores na próxima vida.
O funcionário suspirou, balançando a cabeça. Ele empurrou o corpo para o forno, mas, talvez por compaixão, decidiu bloquear a visão de Florence da cremação.
Ela, no entanto, não desviou os olhos. Não tinha medo. Para Estela, aquilo era uma libertação. Ao menos agora ela não precisaria mais enfrentar o desprezo diário do próprio pai.
“Mamãe, por que o papai não gosta de mim?”
“Mamãe, por que o papai gosta do filho da Daphne?”
“Mamãe, é por minha causa que ele não gosta de você? Me desculpa, mamãe… “
Era isso que sua doce filha dizia. Estela era tão boa, tão inocente. E foi morta por Lucian.
Ele havia prometido levar a filha ao maior parque de diversões da cidade na véspera de seu aniversário. Era o grande sonho dela: passar o dia ao lado do pai. Mas, em vez disso, ele levou Estela para a sala de cirurgia. O rim dela foi retirado para salvar o filho dele com Daphne. Depois, a deixou sozinha, abandonada em uma cama de hospital, onde morreu de infecção.
E Florence? Ela foi a última a saber.
A cena ainda a assombrava. Quando entrou no quarto, encontrou apenas o corpo da filha, já rígido. No pulso da menina, um pequeno relógio infantil ainda estava manchado de sangue. A tela mostrava que ela havia tentado ligar para o pai.
Quando a ligação finalmente foi atendida, a voz de Lucian soou fria do outro lado:
— Não seja louca, como sua mãe.
E desligou.
O som do tom de ocupado ainda ecoava. Florence segurou o choro e abraçou a filha. Não queria assustar sua pequena.
Desde que Daphne Gonçalves havia retornado ao país com o filho, acusando Florence de perseguição, Lucian a tratava como uma louca.
Daphne contava como havia sofrido no exterior, fugindo com o filho prematuro e doente, e Lucian acreditava em cada palavra. Florence, por outro lado, era só uma vilã.
— Você destruiu a vida de Daphne e do meu filho. — Ele havia dito com frieza. — Agora vai pagar em dobro.
E ele cumpriu sua promessa.
Quando Florence voltou ao presente, percebeu que segurava um pequeno recipiente rosa. Era a urna de Estela. Escolheu aquela cor porque era a favorita da filha.
Abraçou a urna com força e sussurrou:
— Estela, vamos para casa.
O vento balançava a saia dela enquanto o sol brilhava, indiferente. Tudo parecia tão vazio.
…
Florence voltou para a casa onde havia vivido com Lucian. O lar que um dia fora deles. Arrumou as coisas de Estela e depois se sentou no sofá, abraçando a urna. Ficou ali até o entardecer.
Do lado de fora, ouviu o som de um carro estacionando. Pouco depois, uma figura alta e elegante entrou na casa.
Oito anos haviam se passado, mas Lucian continuava o mesmo. Atraente, imponente e intocável. E ainda assim, ele não olhou para ela.
Lucian subiu as escadas sem dizer nada. Poucos minutos depois, desceu vestindo um terno impecável. Era o mesmo terno que Daphne havia desenhado para ele, especialmente para o noivado deles.
Ele ainda não olhou para Florence.
Nos últimos oito anos, ele a tratara com a mesma indiferença. Usava o corpo dela quando queria, mas nunca a olhava nos olhos.

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