Quando era pequena, Mariana já gostava de ver o padre competindo pela atenção da Catarina, ainda de colo.
Depois de adulta, sua presença em Cidade Aura ia muito além de simples ostentação.
Apoiando-se na reputação extraordinária da família, era comum vê-la comandando tudo ao seu redor; mas, infelizmente, Rodrigo sempre sentia uma dívida para com ela, e não hesitava em resolver qualquer problema para Mariana, sem sequer perguntar.
Com o tempo, ela também passou a não saber mais qual era realmente o seu lugar.
"Tudo bem."
Clarissa assentiu com a cabeça e olhou para ele com olhos límpidos: "Você... está bem?"
Ela percebeu que, desde que Mariana fizera aquela última pergunta, o humor de Eduardo havia mudado.
Eduardo sorriu de leve. "Estou bem. Descanse um pouco, sim?"
Talvez não tivesse dormido direito no hospital. Assim que Eduardo saiu, Clarissa deitou-se na cama e, sem perceber, adormeceu.
Quando acordou, viu, pela janela, o dourado do entardecer espalhado lá fora, o que lhe trouxe uma sensação de voltar à infância.
Houve muitos momentos em que, depois de cochilar demais numa tarde como aquela, ela acordava e corria para procurar Felipe assim que abria a porta.
No entanto, logo se lembrou de que estava na casa da Família Torres.
E não mais da Família Pacheco.
Clarissa foi ao banheiro se lavar, e, já um pouco mais desperta, desceu as escadas.
Ao chegar à metade da escada caracol, reconheceu de imediato uma silhueta familiar.
Um homem estava sentado de costas para ela, em uma poltrona da sala de estar, mas ela o reconheceu quase que por reflexo.
Elena foi a primeira a percebê-la, acenando e sorrindo: "Clari acordou? Venha, seu irmão veio te ver."
Esse alguém era, naturalmente, Felipe.
Clarissa ficou surpresa. Achava que, conhecendo o temperamento de Felipe, depois de saber que o filho que ela esperava não era dele, eles voltariam imediatamente ao antigo padrão de completa indiferença mútua.
Mas, para sua surpresa, ele veio.
O motorista, de luvas brancas, desceu para abrir a porta de trás, e quem saiu foi Rodrigo.
César, que raramente voltava a Cidade Aura, passou as últimas noites fora com a avó Torres, aproveitando para tomar um vinho com velhos amigos.
Com Rodrigo de volta, o jantar podia finalmente começar.
Ao chegarem à sala de jantar, Elena puxou Clarissa para sentar-se a seu lado; todos se acomodaram ao redor da mesa redonda, e Felipe sentou-se exatamente em frente a Clarissa.
"Por que ninguém me chamou para jantar, mesmo com visitas em casa?"
Mariana entrou na sala de jantar com voz manhosa, sentando-se naturalmente ao lado de Felipe.
O olhar de Elena era distante: "Esta é sua casa, Mariana, se quiser comer, ninguém vai te impedir."
"Elena."
Rodrigo, tentando acalmar, tocou suavemente a mão de Elena e olhou para Mariana: "Pronto, vamos jantar em paz, não faça sua mãe se irritar."

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