Dando um passo atrás, mesmo que Gabriela realmente fosse a jovem senhorita da Família Torres, a Família Torres não era do tipo que agia sem razão.
Desde o patriarca até Nélia Torres, todos eram pessoas sensatas.
Jamais tomariam uma decisão em relação à Família Tavares só porque Gabriela dissesse algumas palavras.
Yasmin, porém, pensava diferente. "É, falar é fácil, mas quem garante que a Família Torres não está só encenando?"
Afinal, eram uma família tradicional centenária; diante de tanta gente, seria inapropriado demonstrar favoritismo.
Mas, no particular, quem poderia saber ao certo o que fariam?
"Victor, ela sempre foi apaixonada por você. Se não houver outra saída..."
Yasmin acreditava estar pensando no bem da Família Tavares. Mordeu os lábios antes de finalmente dizer: "Por que você não se casa com ela...?"
Victor reagiu como se tivesse ouvido uma piada, com sarcasmo: "Já que você é tão dedicada à família, por que não desenterra meu pai do cemitério e faz um casamento espiritual entre ele e a Gabriela?"
Ao terminar, ele abandonou qualquer vestígio do carinho de filho, pegou sua mala e saiu apressado.
O comentário de Victor deixou Yasmin atônita de raiva; em seguida, o estrondo da porta batendo a trouxe de volta à realidade.
Ela abriu a porta com ímpeto e saiu atrás dele, gritando: "Victor, você tem ideia das barbaridades que está dizendo?!"
"Aquele era seu pai! Eu sou sua mãe!"
"Você ainda me vê como sua mãe?"
Victor entregou a mala para Cássio, mantendo o rosto sereno. "E você, ainda me vê como seu filho?"
Se visse, não teria ignorado seus sentimentos, nem encerrado seu casamento sem consultá-lo.
E, muito menos, teria sugerido naquele momento que ele se casasse com Gabriela.
Por um instante, Yasmin sentiu o peso da culpa em seu rosto e ficou sem palavras, apenas observando o Maybach preto sumir na noite densa como tinta.
Muito tempo se passou, e o vento frio da madrugada a fez estremecer.
Só então Yasmin, um tanto atordoada, voltou para casa.
Ela teria errado?
Ela se espreguiçou ao acordar e, enquanto se arrumava, ouviu vagamente o som da campainha.
Pensando que Felipe estava em casa, e como o toque não se repetiu, continuou sua rotina sem preocupação.
A porta se abriu e Victor viu Felipe parado, já do lado de dentro. O pouco de doçura que havia em seu rosto desapareceu completamente. "O que você está fazendo na casa da Clari?"
"Ela me convidou para passar uns dias aqui."
O olhar preguiçoso de Felipe percorreu o rosto cansado de Victor. Ele sorriu, meio resignado, meio indulgente: "Eu até tentei recusar, mas não resisti ao pedido dela."
"Disse que Cecília estava viajando a trabalho e que tinha medo de dormir sozinha em casa."
Aquilo era, em parte, verdade.
Desde pequena, Clarissa era assim, medrosa ao extremo.
Quando ele saía para se encontrar com amigos e demorava um pouco mais, ela mandava várias mensagens seguidas, pedindo para ele voltar logo.
Naquela época, Patrick Torres até brincava dizendo que aquilo não era uma irmã caçula, e sim uma esposa prometida desde a infância.

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