Heitor desligou o telefone.
Era a primeira vez, em tantos anos, que Heitor sentia um ódio tão profundo por alguém.
Uma hora depois, Mourinho enviou a Heitor um pequeno vídeo. Na gravação, Tábata estava sendo atacada por três pacientes do hospital psiquiátrico. Uma delas estava montada em cima de Tábata, dando-lhe tapas no rosto. Outra apertava suas pernas com força, enquanto a terceira a assediava, tocando-a de forma indecente.
Os gritos desesperados de Tábata ecoavam pelo quarto. Ela estava completamente lúcida, sentindo cada segundo da humilhação e da dor. Incapaz de reagir, ela se afogava no desespero, sua dignidade sendo reduzida a nada.
No meio de tudo, ela gritava o nome de Heitor:
— Heitor! Você é cruel! Como pode fazer isso com uma mulher que te ama? Você ainda vai pagar por isso! Eu te amaldiçoo, Heitor! Que você vai para inferno!
...
Heitor desligou o vídeo. Sabia que esse era apenas o início. Tábata ainda teria que passar por milhares de dias como aquele. Não havia mais nada ali que o interessasse.
Ele saiu da casa vazia que Tábata havia alugado.
O silêncio ao redor era quase aterrorizante. Enquanto caminhava, Heitor se lembrou do dia em que se casou com Patrícia. Ele recordou o desfile de carros de luxo decorados com flores, a alegria daquele momento, quando ele levou Patrícia para a nova casa. E agora, por causa de uma mulher insignificante como Tábata, ele havia acabado com tudo. Patrícia havia assinado um acordo de divórcio e partido para o exterior, decidida a se dedicar à sua carreira e a viver separada dele.
Por um instante, Heitor foi tomado por um arrependimento esmagador. “Que piada de mau gosto” Ele pensou.
Ele havia se martirizado, sofrendo anos de culpa e remorso, apenas para descobrir que tudo não passava de uma mentira.
Enquanto ele passava noites ao lado de Tábata, tentando confortá-la, Patrícia estava sofrendo. Suas mãos estavam machucadas, sangrando. Ele a havia negligenciado completamente.
Heitor ficou sentado no carro por um longo tempo, pensando em ligar para Patrícia. Mas, quando finalmente tomou coragem e discou o número dela, tudo o que ouviu foi a voz fria de uma gravação:
— Desculpe, o número que você ligou está temporariamente indisponível. Por favor, tente novamente mais tarde...
No fundo, ele sabia que, se não fosse por Tábata, ele nunca teria desenvolvido seus traumas psicológicos. Se não fosse por ela, ele e Patrícia teriam vivido uma vida feliz, talvez até com filhos correndo pela casa.
Na manhã seguinte, ele recebeu uma mensagem da empregada:
[Patrícia disse que já está tarde e não é necessário que o senhor ligue.]
Heitor respirou fundo, absorvendo a frieza daquela resposta.
De volta ao escritório, ele tratou de finalizar rapidamente todos os trabalhos que exigiam sua presença direta. Ele também integrou os sistemas da empresa ao ambiente internacional, pois havia tomado uma decisão: se Patrícia estava no exterior, ele também iria para lá. Ele queria estar ao lado dela novamente.
No exterior, dentro de um carro luxuoso e espaçoso, Marcelo estava sentado. Ele vestia um terno impecável, com as pernas cruzadas, e segurava um relatório psicológico em mãos.
Enquanto Marcelo folheava as páginas, sua expressão era calma, mas seus olhos estavam cheios de intenções calculadas. O nome do paciente no relatório era exatamente da pessoa que Marcelo planejava destruir.

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