No vídeo, os dois transavam de forma desesperada, completamente tomados pelo prazer, como se nada mais existisse além daquele ato. A gravação tinha sido feita na véspera do casamento e, para piorar, bem em cima da cama onde Ivo e Tábata deveriam passar a noite de núpcias.
Hana, rouca de tanto gritar, berrou:
— Quebrem essa tela, rápido, quebrem essa tela!
Tábata estava parada diante do palco, chorando sem controle, sem conseguir articular uma única frase. Ela tinha acabado de ver a própria mãe trepando com o noivo com quem ela se casaria em poucas horas.
Foi Ivo quem pegou um vaso decorativo de quase meio metro de altura e o arremessou contra o telão. A tela rachou em grande parte, mas alguns quadradinhos ainda continuaram exibindo a gravação.
Naquela noite, Hana só tinha cabeça para o próprio desejo, uma vontade cega e infinita. Ela jamais tinha cogitado que o quarto estivesse cheio de câmeras. Agora, o cérebro dela parecia explodir. Estava tudo acabado. Há poucos minutos, Joana tinha jogado na cara dela que ela tinha seduzido Marcos, e Rui já ficara furioso.
Todos aqueles anos, Hana sempre tinha cuidado para Rui nunca descobrir que ela tinha uma porção de parceiros sexuais. Como eles viviam em países diferentes e se viam poucas vezes por ano, ela conseguia manter a máscara intacta.
Rui fixava o olhar no casal que aparecia no telão. Para ele, uma mulher capaz de se esfregar até no próprio genro não passava de um animal que só pensava em acasalar. E ele, um idiota, tinha acreditado nas juras de Hana dizendo que nenhum outro homem a tinha tocado antes dele.
Hana tinha caído e se machucado feio, o rosto todo ensanguentado, o bracelete caríssimo que ela usava se estilhaçara no chão. Ela engatinhou até os pés de Rui, misturando lágrimas e sangue, e se ajoelhou ali, tremendo.
— Rui, não é o que você está pensando, não foi bem assim. — Hana insistiu. — Eu fui vítima de uma armação, nós dois fomos.
Hana apontou para Heitor, retorcendo o rosto de dor, e perguntou:
— Foi você que soltou esse vídeo, não foi?
— Fui eu. — Confirmou Heitor.
Heitor sorriu, tirou um controle remoto do bolso e aumentou o som até o máximo. O telão estava destruído, mas o sistema de som funcionava perfeitamente.
Começou então a tocar a gravação em que Hana e Ivo conversavam sobre o plano de dopar Patrícia com afrodisíaco e atrair Marcelo até o quarto dela.
— Hana, o seu comportamento sempre foi vergonhoso. Lá fora, a sua reputação já é péssima. Você acha mesmo que a gente nunca contou nada pro Rui? Você não tem a menor condição de continuar como vice-presidente do nosso grupo. — Disseram eles.
Rui completou:
— Agora há pouco eu me encontrei com o Pinto e só hoje fiquei sabendo o que você andou fazendo nas filiais da Colômbia e de Cayman. Ele ajudou você a maquiar muita coisa nos balanços. Nestes últimos anos, você desviou centenas de milhões em mercadorias da empresa. Eu te dou dez dias para devolver tudo. Depois disso, você entrega o cargo e vai embora. Eu já escolhi quem vai te substituir.
O rosto de Hana ficou vermelho, quase roxo. Ela nunca tinha imaginado que aqueles executivos, convidados para a cerimônia, estavam ali, na verdade, para cercá-la e derrubá-la. Pinto era o diretor financeiro da divisão internacional, um sujeito que jamais se curvara a ela. Ela tinha inventado um pretexto qualquer para mandá‑lo para o lugar mais esquecido da África. Nunca pensou que ele reapareceria justo agora para acabar com ela.
Hana quis rebater, mas ela sabia que Pinto provavelmente tinha provas concretas de todos os crimes dela. A sorte, se era que dava para chamar assim, era que ela ainda tinha como devolver o dinheiro. Ao menos por enquanto, a Justiça não a alcançaria. Mas todos aqueles anos de manobras, todas as jogadas dela iriam pelo ralo. Ela se recusava a largar o osso.
Hana enxugou as lágrimas e o sangue do rosto, levantou devagar e, de repente, mudou de tom:
— Rui, eu tô com você há tantos anos. Mesmo que eu não tenha grandes méritos, eu dediquei a minha vida a você. Se você quer que eu saia do grupo, tudo bem. Mas então chegou a hora de você cumprir a sua palavra e me entregar as ações que você me prometeu.

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