Havia coisas naquele vídeo que Marcelo não podia deixar que Patrícia visse. Pelo menos, não ainda.
Por isso, ele recusou sem titubear:
— Isso não diz respeito a você. Eu não vou mostrar o vídeo.
— Então aconteceu alguma coisa suja entre vocês dois, né? — Heitor cutucou.
Patrícia perdeu a paciência:
— Heitor, você tá passando dos limites.
Ela continuou, a voz firme:
— O Marcelo já deixou bem claro que não tem nada a ver com o que aconteceu. Se você quiser investigar o caso e "fazer justiça" pra Tábata, eu não vou te impedir. Mas não precisa ficar aqui despejando insinuação em cima dele. Vai direto na delegacia, em vez de ficar atacando quem não tem nada comprovado contra.
— Você se livra bem das coisas. — Heitor lançou um olhar cortante para Marcelo. — Eu só não acredito que você não tenha rolado nenhuma negociação imunda entre vocês dois.
Depois, Heitor se virou para Patrícia. O olhar suavizou um pouco, mas veio carregado de mágoa:
— Patrícia, você é minha esposa. Em público, você não devia tomar as dores dele desse jeito. É assim que você me enxerga? Eu sou sempre o canalha, e ele é o cara que nunca faz nada errado? Eu nunca vou ser suficiente perto dele?
— Uma coisa não tem nada a ver com a outra. — Respondeu Patrícia.
Ela respirou fundo, engolindo o choro:
— Você pediu ajuda pra ele. E agora, sem prova nenhuma, antes mesmo da polícia chamar o Marcelo pra depor, você fica encurralando ele desse jeito. Você acha isso certo? E, além de tudo, esse quarto é do meu pai. Se você quiser brigar, vai lá fora. Não vem descontar tudo aqui dentro.
O rosto bonito de Heitor ficou rígido. Ele abaixou os olhos por alguns segundos, pensando.
— Eu vou sair um pouco. — Concluiu ele, por fim.
Ele sabia que já tinha passado da linha. Para não piorar as coisas com Patrícia, ele virou as costas e deixou o quarto.
Só quando ela viu as costas dele sumindo pelo corredor era que as lágrimas escorreram.
Era o jeito que Patrícia tinha encontrado pra deixar claro que queria cortar qualquer possibilidade de envolvimento amoroso com ele. E ela sabia que Marcelo era inteligente o bastante para entender a mensagem de imediato.
Ele a fitou com calma:
— Você e o Heitor reataram, então?
Patrícia sustentou o olhar. O rosto neutro dele não entregava nada. Não havia o advogado aconselhando a cliente sobre o divórcio, nem o homem magoado por perder a chance com a mulher que desejava.
Ela confirmou com um aceno:
— A gente tava, sim, caminhando pro divórcio. Mas o meu pai desabou de repente. Eu fiquei perdida, como uma criança. E o Heitor tava lá o tempo todo, cuidando de mim, tentando corrigir tudo o que fez de errado antes. Eu prometi pra ele que não ia me divorciar.
Marcelo já tinha imaginado aquele desfecho. Mas ouvir da boca dela doeu como se fosse novidade.
Ele ainda alimentava a esperança de que Patrícia estivesse apenas adiando o divórcio. Só que, nos últimos tempos, ele tinha percebido claramente que a forma como ela tratava Heitor tinha mudado, enquanto, com ele, ela tinha voltado a usar o distante e formal "Doutor Marcelo".

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