Patrícia havia terminado de coletar sua amostra de sangue e agora esperava ansiosamente pelo resultado do teste genético. Enquanto ela aguardava, viu várias pessoas passando pelo corredor com seus resultados na mão.
Alguns saíam gritando e chorando, desesperados. Outros começavam discussões fervorosas no local. Em certo momento, um homem gritou que havia criado, por mais de vinte anos, um filho que sequer era seu.
Patrícia permaneceu quieta em um canto, tentando não chamar atenção. Seu celular começou a vibrar incessantemente. Quando ela olhou para a tela, viu que era outro número de Heitor ligando sem parar.
Ela observou friamente enquanto ele insistia com cinco chamadas consecutivas. Então, finalmente, ela decidiu atender.
A voz de Heitor soou cansada, mas carregada de uma mistura de frustração e desespero:
— Onde você está? Eu não te disse para ficar lá me esperando? Por que você sumiu de repente?
Patrícia não conseguiu conter o riso irônico.
Ela permaneceu em silêncio, mas Heitor continuou:
— Me fala onde você está, vou te buscar agora. Para de fazer isso, por favor. Eu não dormi a noite inteira e ainda tive que dirigir por aí te procurando. Você quer acabar comigo?
Patrícia deu uma risada amarga:
— O fato de você não ter dormido tem alguma coisa a ver comigo? Eu te pedi para me procurar? Onde eu estou é problema meu, não preciso que você se preocupe.
Do outro lado da linha, Heitor ficou em silêncio por alguns segundos antes de retomar a conversa, agora em um tom mais baixo:
— Patrícia, por que você é tão teimosa? Não pode, pelo menos uma vez, levar em consideração o que eu sinto?
Patrícia bufou de indignação:
— Você está falando sério? Quer que eu me preocupe com a sua imagem? O que você quer? Que eu receba sua amante em casa com comida e bebida para não ser "teimosa"?
Apesar das palavras dela, Heitor não perdeu a calma. Ele parecia exausto demais para reagir de forma agressiva:
— Para com isso, ela não é minha amante. Você já fez sua cena, agora volta para casa. Pedi para a empregada preparar suas comidas preferidas.
Patrícia revirou os olhos, cansada daquele teatro:
— Heitor, você é um ótimo ator. Você consegue ser cínico ao ponto de trair com orgulho e ainda se fazer de marido exemplar. Eu não preciso das suas performances.
Sem esperar por uma resposta, ela encerrou a ligação e, em seguida, bloqueou aquele número também.
Algum tempo depois, Patrícia recebeu os resultados do teste de DNA. Quando seus olhos bateram no relatório, ela sentiu o peito apertar, como se algo estivesse prestes a explodir dentro dela. O casamento dela não foi apenas traído, o da mãe dela também sofreu a mesma traição.
Era oficial. Tábata era sua meia-irmã. Seu pai havia traído sua mãe.
Patrícia permaneceu sentada por alguns minutos, tentando processar tudo. Ela estava completamente perdida. Depois de muito refletir, ela decidiu procurar Marcelo. Temendo atrapalhá-lo em sua rotina, ela enviou uma mensagem pelo WhatsApp.
Patrícia:
[O material foi analisado. Está com tempo?]
Marcelo respondeu cerca de dez minutos depois:
[No mesmo restaurante da última vez.]
Quando Patrícia chegou ao restaurante, percebeu que não havia comido nada o dia inteiro. Pela manhã, a angústia a impediu de tomar café. À tarde, o nervosismo tirou completamente seu apetite.
Ela começou a sentir os primeiros sinais de hipoglicemia. As pernas fraquejaram, e, por pouco, não caiu no chão. Foi exatamente nesse momento que Marcelo apareceu. Com um movimento rápido, ele segurou Patrícia pela cintura e a amparou antes que ela desabasse.
Patrícia sentiu o mundo girar, mas, ao abrir os olhos, percebeu que estava nos braços dele. O perfume de Marcelo era leve, natural, e de alguma forma a acalmava. Ele a ajudou a se sentar e colocou algumas balas em sua mão:
— Está tudo bem?
Patrícia confirmou com um aceno, tentando recuperar o fôlego. Assim que conseguiu, ela tirou o relatório de DNA da bolsa e entregou para Marcelo.
Marcelo leu o documento com atenção. Quando terminou, não parecia surpreso:
— Pela minha experiência, seu pai provavelmente tem outros filhos fora do casamento.
Patrícia arregalou os olhos, incrédula:
— Mas meu pai sempre foi tão bom para minha mãe...
Marcelo manteve a expressão calma e respondeu:
— É melhor investigar mais.
Patrícia se sentiu ainda mais perdida:
— O que eu faço agora? Não sei nem se devo contar para eles.
Ela estava se referindo ao irmão, Ademir, e à mãe.
— Conte o quanto antes. — Respondeu Marcelo de maneira direta. Ele fez uma pausa e então acrescentou. — Assim vocês podem se preparar para o que está por vir.
Patrícia hesitou:
— Mas e quanto a Hana? Ela tem raízes profundas no Grupo Vieira. Não é como minha mãe, que há anos se afastou das empresas para cuidar da família.
Marcelo disse:
— Então, mais um motivo para dar um jeito de afastar Hana.



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