Marcelo já tinha prometido a Patrícia que ajudaria ela a levar Hana até as últimas consequências.
Depois que todo mundo alinhou os detalhes, eles partiram imediatamente para o processo de outorga de poderes.
Quando terminaram, Ademir comentou:
— Dessa vez você vai ficar muito tempo fora. Já que você vai viajar, por que a gente não te convida pra jantar?
Marcelo tinha planejado ir direto pro aeroporto, mas hesitou por um instante:
— Eu conheço um restaurante muito bom. O peixe e o frutos do mar são todos trazidos por frete aéreo, fresquinhos. Que tal a gente ir lá?
Heitor, por instinto, quase recusou o convite de Marcelo. Só que, nos últimos tempos, Marcelo tinha mostrado um senso ético impressionante, tanto na disputa pela herança com Hana quanto em tudo o que dizia respeito a Tábata.
Mesmo sabendo, lá no fundo, que Marcelo queria, na verdade, era jantar com Patrícia, Heitor acabou não criando caso.
Era só uma refeição. Ele decidiu que precisava ser generoso.
Patrícia respondeu:
— O Dr. Marcelo ajudou a família Vieira demais. A gente aceita o convite com todo prazer. Mas deixa que eu pago. Eu tô te devendo esse jantar.
Ela mesma pensou que aquela era a oportunidade perfeita para cumprir a promessa de pagar a tal refeição.
Por um segundo, a expressão de Marcelo escureceu, mas ele se recompôs rápido. F ficou claro que ela queria manter distância dele, a tal ponto que nem como amigo ele parecia mais ter espaço.
Como amigo, ele teria direito a um almoço, a um café, a estar por perto. Mas a situação entre os dois tinha ficado tão constrangedora que, para dividirem uma simples mesa, precisavam ter outras pessoas como escudo.
Vanessa disse:
— Eu vou ficar devendo. Vocês vão lá, se divirtam, que essa noite é dos jovens.
Três carros saíram do hospital.
Ademir foi com Aurora e o filho mais velho, Breno. O caçula tinha ficado em casa porque estava dormindo. Heitor foi com Patrícia. Marcelo guiou sozinho, no carro da frente, abrindo caminho.
Dentro do carro, Aurora parecia um pouco inquieta:
— Amor, você sabe que o Marcelo queria mesmo era chamar a Patrícia pra jantar. A gente indo junto assim… não fica esquisito?
Ademir passou a mão carinhosa pela cabeça da esposa:
— Boba. Justamente porque eu sei que ele queria sair só com a Patrícia é que a gente tem mais é que ir. Imagina deixar só os três: você não tem medo de, do nada, o Heitor e ele saírem no tapa?
Aurora pensou por um segundo e entendeu na hora.
Ademir riu:
— Esse vício aí eu puxei do meu pai.
Patrícia ouviu e ficou cheia de lembranças. O pai sempre tinha sido de uma doçura exagerada com ela, mas, com Ademir, ele era duro como pedra. Mesmo assim, Ademir nunca alimentou inveja. Ele sempre disse que, em criança, Patrícia era tão encantadora que ninguém resistia.
Os pratos começaram a chegar, e todos eram exatamente do gosto de Patrícia. Ela acabou comendo uma quantidade absurda de frutos do mar, coisa que nem ela mesma imaginava ser capaz.
Foi por causa do acidente com a mão que ela tinha descoberto aquele universo. No começo, sempre que ela comia frutos do mar, ela sentia um pouco de tontura. Com o tempo, porém, tinha ficado só a sensação de que nada no mundo era tão saboroso quanto um bom prato tirado do mar.
Sem perceber, Patrícia lançou um olhar para a taça de Marcelo. Ele tinha bebido uma taça atrás da outra, mas continuava firme, sem dar nenhum sinal de embriaguez. O rosto dele estava levemente corado, e o amor que ele sentia por uma certa pessoa era tão óbvio que nem os óculos conseguiam esconder.
"Depois de hoje, quando será que eu vou ver ela de novo?" Pensou Marcelo.
Naquele instante, ele se arrependeu. Naquela noite, no escritório, ele não devia ter escolhido ser o "bom homem".
O bom homem tinha ganhado reputação. O canalha, esse sim, tinha ganhado tudo.
Patrícia chamou a atenção dele de volta:
— Dr. Marcelo, a sua resistência ao álcool é ótima, hein?

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