Patrícia olhou para Heitor. Os traços dele costumavam parecer frios, quase inacessíveis, mas, quando ele olhava para ela, uma doçura inesperada suavizava o olhar. Ele acariciou o rosto dela com a palma da mão, com tanto cuidado que parecia que ele não suportava vê‑la triste.
Ela não explicou o motivo das lágrimas, mas Heitor sabia. Ela tinha ficado abalada ao ver que, depois de toda a confusão daquele dia, a imagem de Cláudio estava sendo detonada na internet.
— A história do pai não tinha como ficar escondida pra sempre. — Consolou Heitor. — Pelo menos ele não viu nada disso em vida. E eu já avisei a imprensa, bem claramente, que ninguém tem autorização pra publicar matéria difamando-o.
Mesmo com todo o poder financeiro de Heitor, ele sabia que era impossível tapar todos os buracos. Naquela era em que todo mundo vivia conectado, bastava um rumor pra algum curioso cavar fundo. E não existia controle absoluto.
Em pouco tempo, até a página da Wikipédia de Cláudio começou a listar, um por um, todos os filhos biológicos dele.
Porém, em comparação ao que Tábata queria causar, a recepção do público não saiu como ela tinha planejado. Aos olhos da maioria, a mãe de Tábata, Hana, tinha ocupado claramente o lugar de amante. Ela e os dois filhos homens eram bastardos nascidos no exterior. Logo depois, alguém ainda vazou como o testamento tinha distribuído a herança.
Muitos internautas comemoraram, escrevendo que ainda bem que o patrimônio não tinha ido parar na mão daquela "amante de quinta" e dos filhos dela, que, segundo eles, tinham uma cara tão antipática quanto o caráter.
Patrícia apenas assentiu, devagar, diante das palavras de Heitor. Ela sabia que, por mais que doesse, o pai dela tinha errado. E aquele era um fato que não dava para apagar.
Heitor pousou um beijo leve nos lábios dela.
— A minha mãe já acertou tudo lá. Assim que terminar o período de detenção, Tábata vai ser deportada e nunca mais vai poder pôr os pés aqui. — Explicou ele.
Quando existia vontade de resolver, sempre aparecia um caminho.
Além dos episódios de orgias e escândalos, Tábata ainda tinha histórico de transtornos psiquiátricos. O país tinha motivo mais do que suficiente para expulsá‑la e proibir a reentrada dela em caráter permanente.
Naquele momento, Heitor pegou o celular e mostrou para ela um vídeo. Nas imagens, logo depois do sepultamento do caixão de Cláudio, ele encarrou os repórteres e assumiu, diante das câmeras:
— Cláudio era o meu sogro. E a filha dele, Patrícia, é a minha esposa. A gente oficializou o casamento no civil faz três anos.
Tirando os parentes próximos, o resto das pessoas, inclusive muitos amigos e jornalistas, ficou em choque. Até então, quase todo mundo achava que Heitor era apenas o namorado de Patrícia.
Afinal, a posição de Heitor no Grupo Mendes era indiscutível, e ele vivia sob os holofotes. Se ele fosse casado, em tese, não daria para esconder por tanto tempo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sem Toque, Um Amor Desperdiçado