— Você já se ouviu? O Norberto por você...
— Norberto valoriza o amor e a lealdade. Se ele cuida tanto de mim, é por causa do Alarico. — Hera cortou as palavras da matriarca: — Vovó, não se deve distorcer a verdade só por causa do que as más línguas andam dizendo.
A velha senhora engasgou com as palavras e ficou em silêncio por alguns instantes. Em seguida, seu olhar esfriou ainda mais:
— Vou deixar uma coisa bem clara: a Família Cardoso não tolera pessoas ardilosas que trazem desarmonia ao lar. Você entende o que eu quero dizer?
Hera ergueu a cabeça devagar e encarou os cabelos brancos da velha senhora, pensando consigo mesma: Você já está com um pé na cova. Por quanto tempo mais acha que vai me controlar?
— Vovó, a foto do Alarico está bem aqui, ele está nos observando. Como a senhora pode ser tão cruel comigo? — Após um protesto estratégico, suas lágrimas escorreram ainda mais fortes.
— A partir de agora, você vai ficar ajoelhada aí e refletir muito bem. Sem a minha permissão, você não se levanta. A Família Cardoso pode muito bem continuar sem você. Quando tiver botado a cabeça no lugar, aí sim conversamos.
Dizendo isso, a matriarca não olhou mais para a neta por afinidade, deu as costas e saiu da Capela da Família.
Nos olhos lacrimejantes de Hera, ardia um ódio vermelho de fúria.
A pesada porta de madeira fechou-se lentamente atrás dela, bloqueando o último feixe de luz.
Sem a menor intenção de continuar ajoelhada, Hera simplesmente jogou o corpo para o lado e sentou-se no chão. Enquanto as lágrimas caíam, uma chama de ressentimento e fúria sombria incendiou-lhe o olhar.
Não se sabe quanto tempo se passou, enquanto o vento gélido da noite de inverno varria os beirais da Mansão Cardoso.
Hera passou as últimas duas horas se arrastando, ajoelhando-se e sentando-se aos poucos. O vestido branco estava coberto de poeira e os cabelos haviam se soltado. Uma mistura de lágrimas e suor frio grudava os fios na pele pálida e sem vida.
De olhos fechados, ela cerrou os dentes e continuou ajoelhada. Por mais que doesse, ela tinha que suportar.
Tinha um pressentimento de que aquela noite lhe traria uma reviravolta completa.
Já era tarde da noite, mas, para Hera, parecia que um século inteiro havia passado.
Finalmente, a pesada porta de madeira da capela foi empurrada por fora com uma força descomunal.
O vento noturno, frio e sombrio, invadiu o ambiente trazendo junto uma figura alta que avançou a passos rápidos.
— Hera!
Era a voz de Norberto.
Ele havia corrido até ali. Seus cabelos curtos, normalmente tão impecáveis, estavam um tanto bagunçados, e a respiração era pesada.
Ao avistar a figura frágil que cambaleava ajoelhada no centro da sala, suas pupilas tremeram violentamente.
Raiva e culpa agarraram o seu coração de uma só vez.

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