José Domingos foi o primeiro a descer do carro. Ele estendeu a mão para o interior do veículo:
— Vânia, chegamos em casa. Vem.-
Vânia mantinha os olhos semicerrados, como se estivesse dormindo, e não moveu um músculo.
Só então José se lembrou de que ela estava cega. Uma pontada de pena atravessou seu peito. Ele se curvou para dentro do carro e a pegou no colo com delicadeza.
— Vânia, como você... ficou tão magra? — José sentiu o peso da esposa nos braços. Ela estava leve como uma pluma, parecendo apenas pele e osso.
Ele lembrou de quando ela foi presa, aos vinte e três anos. Naquela época, ela tinha um rosto redondo e delicado, curvas suaves e uma beleza encantadora.
Sempre que transavam, ele adorava apertar a pele macia da cintura dela. O corpo de Vânia era como um pêssego fresco, rosado e suculento, que o deixava viciado e incapaz de soltá-la.
Ele abraçou o corpo esquelético da esposa com mais força e beijou sua testa, cheio de uma falsa compaixão.
Vânia desviou o rosto sutilmente, com o olhar carregado de aversão.
— Me põe no chão. Eu sei andar sozinha.
— Mas você não enxerga...
— Eu estou cega, não aleijada.
Vânia se debateu até descer dos braços dele.
— Além disso, eu preciso me acostumar a andar sozinha. Você pode me carregar agora, mas vai me carregar pelo resto da vida?
José respondeu sem hesitar:
— Vou! Você é a minha esposa, é claro que vou te carregar pelo resto da vida!
Durante todo o trajeto no carro, Vânia já vinha lutando contra a náusea provocada pelo cheiro daquele perfume barato misturado ao odor de sexo. Agora, ouvindo aquelas declarações nojentas, a vontade de vomitar subiu até a garganta. Ela não ousou abrir a boca para responder.
Tinha medo de vomitar de novo.
Assim que pisou na sala de estar, Vânia viu um bolo luxuoso de cinco andares bem no centro, cercado por bebidas caras e uma mesa farta de aperitivos. Havia jacintos espalhados por toda parte, a flor favorita dela, desabrochando com uma beleza quase sufocante.
— O que está acontecendo? Que horas são? Por que os convidados ainda não chegaram?
— Se quer saber a minha opinião, José, você nem devia ter organizado essa festa! Todas as famílias amigas dos Domingos são da alta sociedade. Quem é que viria prestigiar o retorno de uma ex-presidiária? É muito mau agouro!
Vânia ergueu levemente o olhar e viu a sogra, Jade Lobato, descendo a escada em espiral, coberta de joias e com uma postura esnobe.
— Mãe! Como a senhora pode falar assim? — José franziu a testa, lançando um olhar de advertência.
Só então Jade percebeu que Vânia já estava ali. Seu rosto travou em uma expressão de constrangimento.
Mas ela logo recuperou a empáfia de madame e soltou um riso desdenhoso, cheia de razão:
— E eu falei alguma mentira? Se fosse eu, também não viria. Você deve entender isso muito bem, não é, Vânia?
— Claro que entendo.
Vânia manteve o olhar fixo no vazio e deu um meio sorriso enigmático.
— Aliás, passar três anos na cadeia não foi de todo inútil. Pelo menos me serviu para enxergar a verdadeira cara de certas pessoas. Gente hipócrita, podre por dentro e com duas caras.

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