— O que você quer dizer com isso? Está me xingando? — a voz de Jade Lobato subiu duas oitavas, o rosto distorcido de raiva.
Aquela mulher arrogante e autoritária não lembrava em nada a senhora desesperada que, três anos atrás, havia se ajoelhado chorando para implorar que Vânia salvasse seu filho.
— Vânia, por que falar assim? A mamãe só estava comentando o fato, não foi por mal. — O tom de José era de reprovação, mas seus olhos revelavam o peso da culpa.
— Eu só estava falando dos convidados que não vieram. Por que vocês dois ficaram tão ofendidos?
Vânia curvou os lábios pálidos num sorriso frio e sombrio.
— Essa corja de interesseiros pode até não me respeitar, mas ousar desrespeitar a família Domingos... que absurdo, não é mesmo?
José esfregou as têmporas.
Ele sentia que Vânia havia se transformado em outra pessoa depois de sair da prisão. Antes, ela era dócil, obediente, meiga e atenciosa.
Agora, parecia um porco-espinho raivoso, pronta para atacar qualquer um a qualquer momento.
Pelo visto, a prisão era mesmo um inferno. Tinha conseguido destruir uma garota tão alegre e adorável.
José sentiu pena de Vânia. E, ao mesmo tempo, um alívio secreto brotou em seu peito.
O alívio de saber que, três anos atrás, não foi ele quem acabou apodrecendo lá dentro.
— Estou cansada. Vou subir para descansar. — Vânia não queria passar mais nem um segundo olhando para aquela dupla de hipócritas.
José segurou a cintura dela e sussurrou no seu ouvido:
— Eu te levo pro quarto.
— José, vem comigo. Preciso falar com você agora! — exigiu Jade Lobato, impaciente.
José hesitou.
— Mas...
Os olhos de Vânia se curvaram num sorriso que não chegava ao fundo da alma.
— Pode ir. A Dona Marina me ajuda a subir.
— Tudo bem. Me espera lá em cima, eu não demoro. — José beijou o rosto dela e saiu acompanhando a mãe.
Assim que ele virou as costas, Vânia ergueu a mão desesperadamente e esfregou o próprio rosto com força, tentando limpar o beijo até a pele ficar vermelha.
Até hoje, ela se lembrava perfeitamente de cada detalhe daquela primeira noite. José a abraçando forte, com os corpos suados, e fazendo uma promessa com cada palavra cheia de peso:
— "Vânia, eu te amo. Eu juro que vou casar com você... minha Senhora Domingos."
E ele cumpriu a promessa. Vânia finalmente se tornou a Senhora Domingos.
Ela achava que todo o seu sofrimento havia ficado para trás. Que tinha encontrado o amor verdadeiro, o homem em quem podia confiar a sua vida.
Foi por isso que, há três anos, quando a Divisão de Pesquisa em Energia Renovável do Grupo Domingos sofreu um acidente gravíssimo que resultou em três mortos e quatro feridos, deixando a empresa à beira da falência, ela aceitou a culpa.
Comoveu-se com as lágrimas e as súplicas de José e da mãe dele, e assumiu toda a responsabilidade pelo desastre no lugar do marido.
Foi para a cadeia e cumpriu três anos de pena.
Ela sacrificou seu próprio futuro brilhante e se tornou uma presidiária, apenas para proteger a cadeira de presidente de José Domingos e salvar a família dele da ruína total.
Mergulhada em suas lembranças, Vânia piscou lentamente, escondendo a tempestade de dor nos olhos.
Hoje, o arrependimento rasgava suas entranhas.
Se soubesse que, três anos depois, o que a aguardava era um resultado tão sujo e repugnante, ela jamais teria assumido a culpa por José Domingos.

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