Saindo do Grupo Serra, o vento gélido da rua golpeou-lhe o rosto.
As pernas de Isabel fraquejaram, quase a fazendo tropeçar e cair nos degraus.
Após sair de casa apressada devido à ligação telefônica daquela manhã, ela não comeu nem bebeu nada. A ansiedade consumindo os seus pensamentos sobre o estado de saúde da tia, a tensão e a forte náusea por causa da gravidez causaram-lhe uma forte crise de vertigem.
Tropeçando pelas calçadas, ela estendeu a mão para se apoiar no poste de luz gelado pintado de preto, em um esforço desesperado para manter o equilíbrio.
O seu rosto parecia tão pálido e frágil quanto um papel transparente. Uma fina camada de suor frio escorria-lhe pela testa.
Reprimindo o enorme desconforto que invadia todo o seu corpo, Isabel tirou o telefone para ligar para Sérgio.
Após o que pareceu um tempo muito longo, ela ouviu a voz exausta do outro lado da linha: “Alô!”
Assim que reconheceu o tom dele, as unhas dela arranharam a superfície do poste enquanto ela fazia o possível para manter a sua racionalidade em cheque: “Sérgio, você está pretendendo dar o rim à Melissa?”
Após ouvir isso, ele ficou em silêncio por alguns instantes. “A situação dela é muito crítica, conversaremos sobre isso quando eu voltar.”
Aquele breve momento de hesitação, combinado com o que ele disse num tom baixo, arremessou Isabel num abismo de gelo avassalador.
O que quer que as suas intenções ditassem já estavam óbvias: os seus motivos já haviam se alinhado ao favor de outra.
Isabel encerrou a chamada imediatamente em vez de insistir. Um calafrio tomou conta dela, arrepiando os pelos da nuca e dos braços.
A tia dela ainda lutava pela vida no hospital, e o Murilo aguardava a sua resposta em casa.
Mas, para a sua infelicidade, a chance pelo transplante de rim não existia mais.
O médico sugerira um transplante imediato e, além disso, quanto mais atrasassem, mais os riscos seriam exponenciados.
Os três anos que ela passou tolerando e aguentando calada enquanto dedicava tudo a ele recompensaram-na com o puro desdém e a preferência absoluta a outras, pisoteando as suas dignidade e afeição de todas as formas.
Com os lábios mordidos, ela suprimiu a onda amarga subindo-lhe pela garganta.
A tia dela não podia perder a vida. Se isso acontecesse, quão miserável Murilo se sentiria?
O tio dela entregara a sua vida para proteger Isabel e a sua mãe, mas lá estava ela, sendo forçada a se submeter às circunstâncias, testemunhando a esposa dele morrer ao vento, com um órgão para salvar a sua vida, a um milímetro de seu alcance.
Esse pensamento afogava a mente de Isabel em lamento, algo simplesmente impossível para ela de aceitar ou superar. Se ela jamais tivesse sabido de tal plano de intervenção para a cirurgia de sua tia, essa notícia não causaria uma dor sufocante assim.
Foi o seu próprio marido, Sérgio, quem sugeriu que houvesse uma chance de sobrevivência. Se a vida da sua tia ia ser perdida apenas porque o seu marido desejava dar as honras à Flávia e conceder a chance à Melissa, como ela poderia simplesmente concordar passivamente?
Naquele instante, o seu celular foi atingido pela notificação da chamada de Murilo.
Encarando o nome aparecendo na tela, Isabel engoliu as lágrimas ameaçando escorrer.

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