"Valentina"
O Aroldo realmente se esforçou para encontrar o pior lugar. O lugar era o próprio inferno na terra. Um prédio cinzento, com paredes descascadas pela umidade, janelas quebradas e um cheiro insuportável de desinfetante barato misturado com abandono. Idosos ficavam sentados em cadeiras de plástico no saguão, com olhares perdidos, tratados como carcaças esquecidas. A cada rosto entristecido que eu enfrentava, o meu coração se quebrava mais um pouco.
Eu parei na recepção e olhei para uma mulher de cabelos grisalhos e rosto sisudo. Ela me olhou por cima dos óculos e pediu meu documento de identidade. Eu apresentei e ela olhou uma lista no computador.
- Não, seu nome não está entre os visitantes permitidos. - Ela respondeu sem nenhuma emoção.
- É a minha avó! Por favor, que mal tem me deixar vê-la por cinco minutos? - Eu pedi tentando controlar a minha raiva, porque eu sabia que ali, se eu não mantivesse a calma, eles descontariam na minha avó.
- Nem é hora de visita. Pede ao filho dela que autorize a sua visita. Ele só autorizou uma neta, Ágatha. E a esposa dele, Marli. - Ela me devolveu a minha identidade.
- Senhora, por favor, pelo que a senhora mais ama, me deixa ver a minha avó. - Eu me ajoelhei, implorando àquela mulher.
- O que foi, Zélia? - Uma outra mulher apareceu, saindo pela porta atrás da recepção.
- Essa aí é neta da moradora que chegou hoje. Mas não está liberada para a visita.
- Deixa ela entrar, Zélia. Ninguém precisa saber. - A outra falou com um sorriso indulgente para mim. - Vai, segue esse corredor a esquerda direto, ela está no último quarto. Mas não espere muito, por aqui nós temos que fazer milagre com o pouco que recebemos e a falta de estrutura.
Eu agradeci e corri pelo corredor com a minha mala, até chegar ao último quarto. A minha avó estava deitada em uma cama estreita, com um colchão muito fino e sem lençol, encolhida e tremendo de frio. A colônia de lavanda dela havia sumido, substituída pelo cheiro da miséria daquele lugar. No segundo em que me viu, os olhos dela se encheram de água.
- Tina… me tira daqui, minha filha. Está frio… - Ela chorou, a voz fraquinha partindo o meu coração em mil pedaços. Mas eu não podia chorar, não ali na frente dela.
Eu me ajoelhei ao lado daquela cama e abracei a minha avó. Depois abri a minha mala e tirei de lá um agasalho de moletom que coloquei nela. Eu tinha quatro toalhas de banho, amarrei as ponta de umas às outras e estiquei na cama num forro improvisado, coloquei sob a cabeça dela o meu travesseiro e peguei a minha manta e cobri o corpo magrinho dela. Era tudo o que eu conseguia fazer naquele momento. Eu apertei as mãos trêmulas dela e fiz o meu juramento definitivo:
- Eu vou te tirar daqui, vó. Eu prometo. Nem que eu tenha que vender a minha alma para o diabo.
- Não fala isso, minha filha. - Ela choramingou.
- Vó, aguenta um pouco, por favor, só um pouco. Eu tenho que ir, mas eu prometo que volto para te tirar daqui.


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