Tirar nota máxima em português no vestibular era algo tão raro que até a expressão “uma em um milhão” parecia modesta diante desse feito.
Esse resultado podia, sem exagero, entrar para a história.
Desde que o sistema do ENEM foi implantado, só dois estudantes no país inteiro haviam alcançado a nota máxima em português.
Quando um estado via nascer um aluno com essa façanha, era certo que uma enxurrada de veículos de imprensa se debruçaria sobre o caso, fazendo reportagens sensacionais, enquanto as melhores faculdades do país disputariam aquele nome para seus cursos de letras.
O segredo para a nota máxima estava, acima de tudo, na redação.
Júlia Araújo acompanhava a turma do primeiro ano há dois anos; aquele era o terceiro. Até então, só Mauro, o segundo melhor do ano, havia garantido algumas vezes a nota máxima na redação.
Nem Antônio Noé, com toda sua habilidade, conseguia superá-lo em português.
Naquele momento, só podia ser ele.
O pensamento mal surgiu na cabeça de Júlia Araújo.
— Aposto que é o Mauro — arriscou um dos professores, sorrindo em seguida. — Se não fosse proibido, a Prof. Sidney quase tirou foto da folha de respostas ontem. Ela disse que, quando devolverem a prova para o Mauro, vai pedir uma cópia para colar na sala, mostrar para os alunos como se faz.
Outros professores do segundo ano logo disseram que também queriam uma cópia para inspirar suas turmas.
E, entre risos, parabenizaram Júlia Araújo:
— Parabéns, Diretora Júlia, ter um aluno com nota máxima em português é para poucos.
O brilho nos olhos de Júlia Araújo era impossível de esconder, mas ela procurou manter o controle.
— Obrigada pelo empenho de vocês, podem ir descansar em casa depois de entregarem as provas — disse ela.
Os professores assentiram, sorrindo.
Na Cidade R, ninguém nunca tinha conseguido nota máxima em português.
Mesmo que não se tratasse de uma prova tão relevante quanto o ENEM, a avaliação mensal do Colégio H de Cidade H tinha um peso enorme. Um resultado desses era suficiente para transformar o currículo da Diretora Júlia.
……
Júlia Araújo voltou para a sala da turma um, esbanjando satisfação.
Rui Costa conversava com Mauro, conferindo respostas, especialmente a última questão de física.
Depois de discutir a questão, Rui perguntou:
— Mauro, já fez uma estimativa? Quanto deu no total?
Mauro pensou por um instante:
— Acho que em português vai ser uns sete ou oito pontos a mais que antes, depende da correção da redação. Em matemática, deve dar uns 144. Inglês, uns 147. Em ciências da natureza perdi mais, uns 290.
Rui Costa arregalou os olhos:
— Então seu total vai ser uns 730 pontos?
— Dessa vez o primeiro lugar está em aberto — comentou um colega, girando a caneta, olhando discretamente para Antônio Noé.
Desde que a turma foi dividida por áreas, Antônio Noé sempre ficava com cerca de 730 pontos.
Mauro balançou a cabeça, demonstrando incômodo com aquele tipo de elogio:
— Tudo chute, não vale nada. Quando sair o resultado, aí vemos. Se for primeiro, ótimo, se não for, também está certo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Zoé Santos:A Fênix de Cidade R
Tenham mais respeito com os leitores...
Quando o autor vai atualizar os cap?em outro app já tá no 319...