Vicente nunca teve uma vida tranquila desde pequeno, perdendo entes queridos e ficando sozinho no mundo.
Ele não ousava imaginar o que seria de si se a vida, que por um milagre tinha sido generosa com ele e lhe dado o doce mais gostoso que existia, decidisse ser cruel outra vez e arrancasse tudo de suas mãos.
Quando Margarida ouviu as palavras de Vicente, viu refletida em seus olhos claros uma vulnerabilidade que ele raramente mostrava.
Sem conseguir mais fingir despreocupação, apertou os lábios e respondeu com todo cuidado:
— Sr. Vicente, não fica bravo comigo. Eu prometo que nunca mais vou fazer nada que possa te deixar numa situação difícil, tá bom?
Vicente hesitou por um momento, e só depois de muito tempo conseguiu falar:
— Você acha que eu estou bravo porque você fez algo que me deixou numa situação difícil?
— É, sim, Sr. Vicente. O senhor é uma boa pessoa, quando vê alguém se machucando, com certeza fica preocupado. — Respondeu Margarida, com sinceridade.
Afinal, eles eram parceiros, e Margarida achava que Vicente se preocupava com ela da mesma forma que ela tinha se preocupado com ele quando escalou a varanda.
Vicente ficou em silêncio por um bom tempo.
Era como falar com as paredes.
Depois de olhar para Margarida por alguns momentos, ele suspirou fundo.
— Deixa para lá. Só não faz mais nada perigoso, pelo menos para eu não ficar doido de preocupação. — Disse ele, com resignação.
— Tá bom, tá bom. — Margarida assentiu a cabeça várias vezes, depois olhou para Vicente com receio. — Sr. Vicente, e o quarto da sua mãe que foi mexido, você tem certeza de que não tem problema?
— Tudo que falei na frente do Guilherme era verdade. Além disso, é só um quarto, minha mãe já não está mais lá há muito tempo.


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