De repente, a rotina parecia ter voltado àquela calmaria superficial, como o mar se aquietando depois de uma tempestade.
Finalmente livre de todas as obrigações sociais consideradas indispensáveis pelos mais velhos, Margarida passou a se dedicar por inteiro ao trabalho no ateliê. Iniciou uma nova escultura e, com Teresa sempre presente, não perdeu contato com as últimas novidades do mundo ao redor.
As fofocas sobre Augusto e Leonor continuavam sendo o tema predileto de Teresa, que não se cansava de comentar cada rumor, por menor que fosse.
Para surpresa de todos, mesmo depois da crise que quase destruiu a parceria entre as famílias Almeida e Carvalho, o casal não só não retomou o relacionamento, como parecia cada vez mais distante.
Augusto chegou ao ponto de ignorar Leonor durante a transferência dela para o hospital, mantendo-se frio e alheio até mesmo após a recuperação completa da moça.
Sentindo-se abandonada, Leonor passou a aparecer repetidas vezes na mansão da família Carvalho, chorando e fazendo cenas capazes de tirar Luísa do sério.
Enquanto isso, Augusto só parecia se importar com o trabalho do Grupo Carvalho, mergulhado em novos projetos numa pressa quase desesperada, como se estivesse correndo contra um prazo invisível.
Mesmo conhecendo Augusto há mais de dez anos, Margarida seguia sem entender o que ele realmente queria. De qualquer forma, ela preferia focar nos próprios problemas.
Sentada no ateliê, com as mãos modelando o barro, perguntou para Teresa:
— E sobre aquela pessoa que pedi para você investigar? Tem alguma novidade?
Teresa abriu um sorriso maroto, cheia de segredos.
— Tenho sim! Você estava falando da Susana, né? Pois hoje vim aqui justamente por causa dela. — Animada, Teresa contou o que havia descoberto. — Descobri que ela chegou a Santarino, mas não voltou para Porto Maravia. O estranho é que tem passado bastante tempo na mansão da família Almeida, sempre conversando baixinho com a Marina. Aposto que estão tramando alguma coisa.
— Mas ela não procurou o Vicente, nem veio tirar satisfação comigo. — Disse Margarida, intrigada.
Ela imaginava que Susana, vista por todos como a futura matriarca da família Almeida, fosse tentar reconquistar Vicente, ou pelo menos arrumar alguma confusão ao saber que outra pessoa ocupava o lugar dela. Mas vê-la apenas conspirando com Marina era algo que Margarida não esperava.
Teresa também se mostrou surpresa por um instante, mas logo balançou os ombros e disse:
— Susana é esperta. Acho que ela percebeu que agora Vicente está ao seu lado e desistiu de lutar por ele. Nem toda mulher é como a Leonor, que adora se meter onde não é chamada.
Teresa aproveitou para dar aquela alfinetada do dia:
— Quer saber? Em tudo, Vicente dá de dez a zero no Augusto, até no tipo de mulher que se interessa por ele. Leonor é maldosa, burra e sem classe. Difícil achar alguém pior.
Augusto devia ser cego para largar a própria noiva por uma dessas.
Depois de seu desabafo, Teresa voltou a admirar o trabalho de Margarida, os olhos brilhando de entusiasmo.

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