Margarida levou um baita susto. Num reflexo quase automático, ela recuou o corpo, como se precisasse se proteger. Só que, antes que pudesse pensar em qualquer coisa, a mão de Vicente já tinha deslizado até a lateral de seu rosto e, ao invés de qualquer contato inesperado, só encaixou suavemente uma máscara de nebulização nela.
— Já está na hora da sua nebulização. — A voz de Vicente era baixa, soava um pouco rouca.
Só então Margarida percebeu seu engano ao ver que o médico, que tinha saído há pouco para preparar os remédios, já havia retornado com o aparelho pronto. Vicente apenas estava ali por cuidado, não por qualquer outro motivo. Ela se sentiu ainda mais envergonhada.
Sentiu o rosto e o pescoço queimando; parecia que até as orelhas estavam vermelho-vivo. O desconforto no peito se transformou num calor constrangedor.
— Senhor... Sr. Vicente... Obrigada...
— Não foi nada. — Vicente respondeu com aquele olhar enigmático de sempre, o tipo de olhar profundo no qual ninguém jamais saberia o que ele realmente sentia. Enquanto ligava o aparelho, falou com firmeza. — Só que daqui a pouco vamos casar, mesmo sendo só um acordo. Não adianta agir como se tivesse medo de mim. Sabe que, se continuar assim, qualquer um percebe que tem algo de errado nessa história.
Margarida travou por um segundo e, enquanto recebia o tratamento, mergulhou em seus pensamentos.
...
Cerca de meia hora depois, terminada a sessão, Margarida ficou sozinha na suíte, já que Vicente e o médico tinham saído.
No corredor, Marcos esperava há séculos, inquieto.
Quando Vicente apareceu, ele foi logo ao encontro dele, mal conseguindo disfarçar a ansiedade.
— Sr. Vicente, o senhor vai mesmo... vai casar com a Srta. Margarida só por causa daquela dívida antiga?
Marcos estava claramente nervoso. Sempre sentiu que era um pouco culpado pelo rolo todo, já que tinha sido ele a soltar demais a língua no passado.
— Aliás, Sr. Vicente, quando a Srta. Margarida fez o pedido para oficializar o casamento, o relógio da sala já tinha passado da meia-noite... — Marcos tentou explicar, como quem pedia permissão para dar um recado importante.
Ou seja, o tal acordo dos sete dias já era coisa do passado. Vicente não tinha mais nenhuma obrigação de aceitar.
Mas o rosto de Vicente não se alterou nem um pouco.

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