O homem segurava o celular com um sorriso sombrio, falando baixo, mas com firmeza, para a pessoa que estava do outro lado da linha.
Os olhos de Margarida estremeceram; as pupilas se dilataram enquanto o pensamento, ainda imerso numa névoa pesada, parecia o de um motor antigo que custava a pegar. Mesmo assim, no meio daquelas palavras carregadas de veneno, ela conseguiu captar informações importantes.
Primeiro, o jeito dele falar não lembrava em nada um criminoso de ocasião. A voz era precisa, controlada, sem hesitação ou nervosismo. Dava para sentir que ele era treinado, talvez um profissional acostumado a esse tipo de serviço.
Segundo, ele não parecia ter intenção de agir de imediato contra ela. Antes de qualquer decisão, fez questão de ligar para pedir autorização ao chefe. Isso só podia significar que quem estava na outra ponta da ligação conhecia Margarida. Talvez até fosse alguém próximo.
O terceiro ponto, porém, foi o mais perturbador. A pessoa do telefone demonstrava uma estranha consideração por Vicente. Sabia que ele se importava com Margarida e, por isso, orientou o capanga a agir rápido, apagando todos os rastros. Até sugeriu criar pistas falsas para que Vicente acreditasse que ela o havia traído, tudo com o objetivo de aliviar a dor que ele sentiria depois da morte dela.
Mas quem, afinal, teria a frieza para pensar em detalhes tão cruéis e, ao mesmo tempo, se preocupar tanto com Vicente?

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