— Margarida, não tenho para onde ir. — A voz de Vicente soava grave, carregada de súplica, cada palavra revelando a angústia que o sufocava. — Ontem passei o dia inteiro andando de um lado para o outro, encontrei tanta gente, rodei tantos lugares. Será que posso dormir aqui no chão, só por duas horas? Só duas horas, depois vou embora.
Ele estava parado à porta, imponente como sempre, mas, ao mesmo tempo, parecia um cão grande e perdido, sem rumo, implorando apenas por um teto sob o qual pudesse se abrigar da tempestade.
Cada palavra vinha carregada de cuidado, como se temesse que qualquer tom mais duro fosse suficiente para afastá-la ainda mais.
Ao vê-lo invadir o quarto sem permissão, Margarida havia franzido a testa instintivamente, mas, quando escutou a súplica, sua expressão suavizou um pouco, ainda que relutante.
— Sr. Vicente, não precisa se rebaixar assim. Sei que você passou por muita coisa ontem, nunca quis impedir que descansasse. Mas esta casa é enorme. Por que exatamente aqui, no chão do meu quarto?
Afinal, ele era o presidente do Grupo Almeida. Se alguém o visse deitado no chão feito um mendigo, pareceria uma piada cruel contra a própria dignidade. Mas Vicente, sem a menor vergonha, balançou a cabeça com firmeza.
— Sei que poderia descansar em qualquer outro lugar, mas eu não consigo. Em nenhum lugar eu teria paz. Só consigo fechar os olhos se for perto de você.
Margarida suspirou, cansada.
— Mesmo que você diga isso, não vai mudar minha decisão de ir embora daqui a duas horas.
Ela já havia sido clara. Se ele estava tentando usar aqueles momentos como última carta, fazendo-se de coitado, não adiantaria. A resposta continuaria a mesma.

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