Como uma garota de apenas vinte e um anos poderia resistir à avalanche de calúnias e continuar em pé dentro dessa sociedade cruel?
Diante da pergunta, Carlos se levantou da mesa, soltando um longo suspiro.
No entanto, sua resposta soou gelada:
— Augusto, você acha mesmo que importa se a Margarida vai conseguir sobreviver a tudo isso?
O silêncio pairou pesado no ar, trazendo um frio estranho e incômodo.
Depois de um tempo, Augusto encarou Carlos através das lentes dos óculos, os lábios claros finalmente se curvando numa expressão gélida.
— Claro que não importa. A verdade é que a gente já deu chances demais para Margarida. O senhor está certo, foi ela quem não soube valorizar nada.
Mesmo sendo vítima, e não a culpada, Margarida agora era obrigada a carregar nas costas todas as acusações absurdas rondando a internet. Não importava o quanto a verdade estivesse distorcida, toda a sujeira agora caía sobre ela e, se um dia ela não resistisse, todos achariam que era apenas seu merecido.
Augusto então virou as costas, saiu do escritório enquanto já mexia no celular, tratando de resolver certas coisas.
Só quando saiu é que percebeu que sua mão sangrava nas palmas, provavelmente ferida por tanto apertar os punhos durante a conversa com Carlos, e agora o sangue manchava não só sua mão, mas também seus olhos.
...
Quase de repente, o céu que amanhecia tão limpo se cobriu de nuvens carregadas e trovões começaram a estourar lá fora, como se tudo acompanhasse o clima que tomava sua vida.
Após conversar com Vicente ao telefone, Margarida passou a noite no quarto do hotel, planejando com afinco seus próximos passos na carreira, pensando num novo projeto de escultura que pudesse, como há três anos, surpreender o mundo todo.

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