O silêncio se instalou de maneira quase sufocante assim que a carta foi aberta.
Lorenzo e Teresa haviam se aproximado poucos instantes antes e ficaram parados no mesmo lugar, como se o tempo tivesse congelado. Ambos se encararam por alguns segundos, sem saber ao certo como reagir.
— Isso... como a Margarida pôde decidir algo assim tão de repente? — Lorenzo gaguejou, com a voz trêmula, como se ainda tentasse acreditar no que estava lendo.
— Pois é. — Murmurou Teresa, com um peso no peito que parecia dificultar até a respiração. — Ela me disse, dias atrás, que só daria uma resposta ao Vicente quando ele resolvesse tudo. Eu estava esperando qualquer coisa... menos isso.
O ar parecia mais frio, e o tom aflito de Lorenzo refletia o desespero que se espalhava.
— E agora? Se ela realmente se foi, o Vicente não vai acabar sozinho de novo?
Teresa mordeu o lábio antes de responder, tentando manter a firmeza:
— Mesmo que ele acabe sozinho, vai precisar aceitar. Essa foi uma escolha dela, feita com a cabeça fria. Ela decidiu ir embora sem perdoá-lo, e, por mais que doa, só nos resta respeitar. Forçar qualquer coisa agora só vai trazer mais sofrimento.
No íntimo, ela também estava magoada. Como melhor amiga, doía demais vê-la partir sem uma conversa frente a frente, deixando apenas um bilhete como despedida. Ainda assim, conhecia Margarida o suficiente para saber que, quando ela tomava uma decisão, não havia como fazê-la mudar de ideia e, por isso, a única opção era apoiá-la, mesmo com o coração apertado.
Vicente permaneceu imóvel.
O olhar escuro estava fixo nas linhas escritas, como se tentasse gravá-las uma última vez. Passaram-se segundos longos, quase intermináveis, até que seus dedos se fecharam lentamente. O papel, antes liso, transformou-se em uma pequena esfera amassada em sua mão.
...
Lá fora, o céu, que até então estava límpido, começava a ganhar tons cinzentos.

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