O amanhecer chegou silencioso.
A luz pálida do sol entrou pelas frestas da cortina pesada, deslizando pelo chão do quarto de hóspedes e tocando o corpo de Liana encolhido no canto da cama. Ela não havia dormido, em nenhum momento. O corpo doía, a mente estava exausta, e as roupas que vestia haviam secado no próprio corpo depois da noite longa, fria e cheia de medo.
Os olhos ardiam, o coração estava pesado.
Ela ainda podia sentir o gosto da raiva, da humilhação… Mas também se lembrava do beijo, de como se sentiu. Os curativos doíam, mas as aspirinas que deixaram no quarto ajudaram muito e quando amanheceu ela mesma trocou as ataduras para evitar uma infecção.
Quando ouviu o clique suave da maçaneta, seu corpo inteiro se enrijeceu.
A porta se abriu devagar.
— Tia Lili!
A voz infantil e animada atravessou o quarto como um raio de luz.
Antes que ela pudesse reagir, Kian correu até ela e abraçou suas pernas com força, enterrando o rosto no tecido da roupa dela, como se precisasse ter certeza de que ela ainda estava ali.
— Você tá aqui! — ele disse, sorrindo largo.
Algo dentro de Liana cedeu. Ela se abaixou imediatamente, envolvendo o menino num abraço apertado, sentindo o cheiro dele, o calor, a vida. O aperto no peito diminuiu um pouco.
— Bom dia, pequeno — murmurou, passando a mão pelos cabelos dele.
— Você tá triste — Kian afirmou, sério de repente. — Kian sentiu que a tia tava assustada ontem...
Liana respirou fundo.
Por cima da cabeça do menino, ela viu Dante parado à porta.
Imóvel.
Observando.
Os olhos dele encontraram os dela, mas ela desviou o rosto primeiro.
— Por que você tá triste? — Kian insistiu, puxando o rosto dela para perto do seu.
Liana hesitou, depois respondeu com sinceridade demais para alguém tão pequeno:
— Porque eu quero ir embora… e o seu papi não quer deixar..
Kian se virou lentamente, o olhar doce desapareceu.
— Papi — ele disse, a voz firme demais para sua idade. — A titia tá presa?
Dante fechou o maxilar.
— Kian, isso não é…
— A gente vai dar uma volta — o menino interrompeu, descendo do colo de Liana e segurando a mão dela com força. — Agorinha agorinha.
Então saiu puxando-a, decidido, como se ninguém no mundo pudesse dizer não.
Liana congelou por um segundo, depois olhou para Dante, erguendo as sobrancelhas como quem o desafiava a impedi-la de sair.
E então saiu.
Dante ficou parado apenas um instante antes de reagir.
— Sigam eles — ordenou em voz baixa.
Dois lobos se moveram imediatamente, mantendo distância, atentos.
***
O ar da manhã estava fresco, carregado de cheiro de terra úmida e folhas. Kian caminhava animado, falando sobre coisas aleatórias, apontando árvores, pássaros, pedrinhas no caminho.
Liana sorria por fora, mas, por dentro, o coração batia rápido.
Quando chegaram a uma clareira mais afastada, ela se abaixou e falou com cuidado:
— Kian… vamos brincar de esconde-esconde?
Os olhos dele brilharam.
— Sério?!
— Sério. Vamos correr rapidinho e os seguranças do seu papi que vão procurar.
— Eu sei brincar! — ele riu.
Enquanto ria divertido, completamente alheio as intenções da ruiva, Liana observou ao redor, sentindo a presença dos guardas mesmo sem vê-los. Precisava ser rápida e, principalmente, inteligente.
Tomou coragem por um momento, então se afastou em silêncio, puxando Kian logo depois para trás de árvores, mudando o caminho, forçando uma trilha diferente.
Correu.
Desviou de árvores e raízes, se enfiou entre arbustos.
Os lobos perderam o rastro por segundos preciosos e, quando percebeu que estavam longe o suficiente para que nem a casa ou qualquer sinal dos seguranças fosse visto, o coração quase saltou do peito.
Ela parou bruscamente.
— Kian… você precisa voltar.
— Quê? — ele arregalou os olhos.
— Agora. — Ela se ajoelhou. — Eu preciso ir embora.
O sorriso dele sumiu.
— Não… — ele disse, segurando a roupa dela. — Não vai...
— Eu preciso — Liana respondeu, a voz embargada. — Eu estou com medo, não posso ficar aqui.
— Fica comigo — ele implorou, os olhos marejados. — Por favor… não vai…
Ela o abraçou forte.
— Você é a melhor coisa que aconteceu comigo — sussurrou. — Mas eu não posso ficar.
Kian começou a chorar, alto a plenos pulmões completamente desesperado.


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