O hospital da alcateia estava silencioso demais.
As luzes suaves refletiam nas paredes claras, o cheiro de ervas medicinais misturado ao de sangue antigo ainda pairando no ar. Dante permanecia desacordado na cama, o corpo coberto por faixas e curativos que já começavam a se fechar sozinhos, a pele se regenerando num ritmo impossível para qualquer humano.
O peito subia e descia de forma lenta, forte.
O alfa estava vivo, mesmo machucado.
Sandra não saía de perto dele. Estava sentada ao lado da cama desde que o trouxeram da floresta, segurando a mão dele com força, como se pudesse impedir que ele acordasse e descobrisse algo que ela não queria que fosse descoberto. Seus olhos estavam vermelhos, o rosto abatido, parte daquilo era real. Ver Dante naquele estado havia mexido com ela de verdade.
Mas outra parte… Era puro cálculo.
Queria ser a primeira pessoa que ele visse quando acordasse.
“Assim, quem sabe ele entenda que eu sou melhor do que aquela maldita humana…”, pensava, olhando para o homem desacordado na cama.
A porta do quarto se abriu silenciosamente.
Mason entrou.
— Já dei um jeito na humana — ele disse, em voz baixa.
Sandra ergueu o rosto imediatamente.
— Ela foi embora? — perguntou, com um fio de ansiedade mal disfarçada.
— Sim — Mason respondeu. — Pegou o dinheiro e saiu, um carro chegou para pegá-la há alguns minutos.
Sandra fechou os olhos por um instante e um suspiro de alívio escapou de seus lábios.
— Melhor assim — murmurou. — Assim ele esquece essa ideia idiota de ter uma humana como companheira.
Mason olhou para Dante, inconsciente.
— Quando ele acordar… não pode saber a verdade, tem que achar que ela o abandonou depois dele salvar sua bvida.
— Ele não vai — Sandra respondeu, apertando a mão de Dante com mais força. — Diremos que ela fugiu. Que escolheu ir embora.
Mason assentiu, mas algo em sua expressão denunciava desconforto.
— O menino… — ele começou.
— Kian vai esquecer — Sandra cortou, ríspida. — Crianças esquecem.
Mas nem ela acreditava totalmente nisso.
***
Do outro lado dos portões da mansão, Liana entrava em um táxi com as mãos trêmulas.
O motorista lançou um olhar rápido para o rosto machucado dela pelo retrovisor, mas não disse nada. Apenas deu partida, seguindo pela estrada que levava à cidade.
Liana abriu a mão devagar.
O dinheiro que Mason havia jogado nela estava ali, muito mais do que ela esperava, muito mesmo.
Notas suficientes para recomeçar do zero.
O orgulho gritou dentro dela, queria ter jogado aquilo de volta na cara dele, queria ter ficado, ter gritado, resistido.
Mas o medo falou mais alto.
E Kian…
Pensar no menino fez seu peito apertar com força.
“Para de ser idiota Liana…”, reclamou consigo mesma, mordendo o lábio com força. “Você nem conhecia aquele menino direito e o pai dele te sequestrou.”
Conforme o carro se afastava da floresta, algo começou a incomodá-la por dentro. Uma pressão estranha no peito, como se um fio invisível estivesse sendo esticado até o limite. Não era dor exatamente, era vazio, um incômodo profundo, difícil de nomear.
Ela levou a mão ao coração, respirando fundo.
— Não é o meu lugar — murmurou para si mesma. — Eu nem sei o que eles são…
A ruiva encostou a cabeça no vidro e fechou os olhos por alguns segundos. As imagens vieram sem pedir permissão: Dante ensanguentado no chão, o olhar dele implorando para que ela não fugisse, Kian chorando, agarrado às pernas dela.
Quando o táxi parou na rodoviária, Liana pagou e desceu, o cheiro de óleo, concreto e gente demais a envolveu. Um contraste brutal com a floresta, com o ar fresco da mansão.
Ela caminhou até o guichê e perguntou pelo próximo ônibus para sua cidade, mas, quando ouviu o nome do destino, algo dentro dela travou.
Justin.
Amélia.
A traição.
O riso cruel da própria irmã.
Não.
Ela não podia voltar.
Não queria voltar.
Não depois de tudo.
— Obrigada — disse ao atendente, afastando-se. — Não vai ser hoje.
Liana saiu da rodoviária sem olhar para trás.
Decidiu ficar.
Decidiu esquecer.

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